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“CRIOLO, AMARO E DINO”: uma das maiores surpresas do ano

(Foto: Helder Fronteira)

O encontro entre Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago resultou em um dos projetos mais ambiciosos da música brasileira recente. Lançado em janeiro, o álbum “CRIOLO, AMARO E DINO” nasce de sessões realizadas entre Lisboa, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, costurando referências africanas, jazz, rap, soul, MPB e ritmos cabo-verdianos sem soar artificial ou acadêmico demais.

O disco parte de um encontro casual em Portugal, mas rapidamente se transforma em algo maior: uma obra guiada pela liberdade criativa e pela conexão entre artistas que compartilham ancestralidade, inquietação política e apetite por experimentação sonora.

A grande força do trabalho está justamente na ausência de hierarquia entre os três músicos. Em vez de um álbum dominado pelo rap de Criolo ou pelo virtuosismo jazzístico de Amaro Freitas, o repertório funciona como uma conversa permanente. Em “E Se Livros Fossem Líquidos”, por exemplo, o trio alcança um raro equilíbrio entre poesia, groove e sofisticação instrumental.

(Imagem: Reprodução)

Já “No Vento de Nós” carrega forte dimensão espiritual, enquanto “Seka” mergulha em sonoridades africanas com intensidade quase ritualística.

Mesmo quando cada artista assume naturalmente mais espaço, o disco mantém unidade. “Você Não Me Quis” aproxima Criolo de suas raízes mais urbanas, “Menina do Coco de Carité” evidencia o piano percussivo de Amaro, e “Fogo Lento” oferece a Dino D’Santiago um terreno ideal para explorar sua voz marcada pela morna cabo-verdiana.

Nem todas as faixas alcançam o mesmo impacto. “Amazônia”, apesar da intenção política relevante, escorrega em momentos excessivamente panfletários, quebrando parte da sutileza construída pelo restante do álbum. “Mama Afrika” também parece dispersa ao tentar abraçar ritmos e ideias demais ao mesmo tempo. Ainda assim, os tropeços não comprometem o conjunto.

“CRIOLO, AMARO E DINO” funciona porque transforma diáspora, memória e experimentação em algo vivo, acessível e emocionalmente potente. É um disco sofisticado sem perder calor humano, político sem soar engessado e ousado sem abandonar o prazer da escuta. Num cenário musical frequentemente dominado por fórmulas previsíveis, o trio entrega uma obra que soa livre, corajosa e profundamente conectada às raízes negras do Atlântico.

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Henrique Romanine

Jornalista, colecionador de vinil e apaixonado por animais, cinema, música e literatura. Inclusive, sem esses quatro, a vida seria um fardo.

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