O executivo da Nestlé Oswaldo Ballarin contratou, durante a ditadura militar brasileira, os serviços de uma agência de relações públicas de fachada que na verdade atuava na vigilância de trabalhadores, perseguição de opositores e na organização de contribuições financeiras para equipar os aparatos de tortura do regime.
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A revelação faz parte de pesquisa da historiadora Gabriella Lima, da Universidade de Lausanne, que acessou arquivos da Brown Boveri (hoje ABB), empresa suíça da qual Ballarin também foi presidente simultaneamente ao cargo de presidente executivo da Nestlé no Brasil entre 1971 e 1978.
As informações foram divulgadas pelo podcast Golpe de 1964: Perdas e Danos, produzido pela Radioagência Nacional da EBC.
O diretor da empresa era Robert Lentz Plassing, conhecido como “Samuca”, um dos torturadores do DOI-Codi do Rio de Janeiro listado no relatório final da Comissão Nacional da Verdade como responsável por torturas e assassinatos.
Em 1979, o conselheiro suíço Jean Ziegler acusou publicamente Ballarin de transferir regularmente fundos da Brown Boveri para a agência entre 1963 e 1978, classificando-o como cúmplice em “homicídio premeditado”. Ballarin, que morreu em 1999, sempre alegou que a relação se limitava a serviços de relações públicas.
Caixa preta
A Nestlé também aparece no relatório da Comissão da Verdade por ter contribuído, ao lado de outras multinacionais, com doações para a Operação Bandeirantes (Oban), o principal centro de tortura do período. Além disso, o então presidente da Nestlé Brasil, Gualter Mano, fez contribuições ao IPES, think tank empresarial que ajudou a articular o golpe de 1964.
Durante o “milagre econômico”, a rentabilidade da Nestlé no Brasil praticamente dobrou, com crescimento médio superior ao do PIB nacional. A empresa, porém, negou acesso da pesquisadora aos seus arquivos.
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