“The Other Side” é o disco mais elegante (e ambicioso) da carreira de Seu Jorge
Lançado mundialmente em 8 de maio de 2026, o álbum “The Other Side” marca uma virada silenciosa, e talvez definitiva, na trajetória de Seu Jorge. Gravado ao longo de mais de 15 anos entre sessões espaçadas em Los Angeles, o disco abandona quase completamente o espírito expansivo e popular que transformou o artista em fenômeno de rádio nos anos 2000.
No lugar do sambista festivo de “Burguesinha” e “Mina do Condomínio”, surge um intérprete mais contemplativo, interessado em refinamento sonoro, arranjos cinematográficos e uma grande dose de densidade.
O projeto começou a ganhar forma ainda no embalo de “América Brasil”, lançado em 2007, mas acabou atravessando mudanças profundas na carreira do cantor, incluindo a pandemia e até novos trabalhos antes de finalmente chegar ao público. A longa espera, porém, encontra justificativa na qualidade final da obra.
Produzido por Mario Caldato Jr. e com arranjos assinados por Miguel Atwood-Ferguson, “The Other Side” é um disco minucioso, elegante e claramente pensado para audições mais lentas, longe da lógica imediatista do streaming.
A abertura com “Crença”, composição de Milton Nascimento e Márcio Borges, já entrega o tom do álbum. Cordas discretas, instrumentação econômica e a voz grave de Seu Jorge conduzem um trabalho que parece interessado em explorar silêncio, espaço e textura. Em vários momentos, a sensação é a de acompanhar uma trilha sonora sem imagens, como se cada faixa estivesse desenhando cenas na cabeça do ouvinte.

O grande mérito do disco está justamente nessa construção sofisticada sem soar artificial. Há um evidente diálogo com samba, bossa nova, jazz e MPB clássica, mas também existe uma lógica moderna de reconstrução estética muito próxima do universo do hip-hop. Em vez de simplesmente revisitar canções conhecidas, Seu Jorge reorganiza essas músicas e lhes dá novos significados, quase como um produtor trabalhando samples raros.
Entre os melhores momentos está “Vento de Maio”, ao lado de Maria Rita. A faixa cresce lentamente até atingir um ponto de enorme intensidade emocional, sustentada por harmonias vocais delicadas e arranjos orquestrais precisos. Já “Quando Chego”, parceria com Marisa Monte e Arnaldo Antunes, aproxima o disco de uma estética mais solar, lembrando em alguns momentos a atmosfera dos Tribalistas.
Mas é em “Caboclo”, clássico cultuado de Arthur Verocai, que o álbum alcança seu auge. A interpretação cresce sobre guitarras psicodélicas, batidas discretas e cordas grandiosas, criando uma atmosfera sofisticada sem perder a pulsação brasileira. A faixa sintetiza perfeitamente a proposta do disco: manter uma tradição musical, porém, reinterpretada com linguagem contemporânea.
Nem tudo funciona com o mesmo impacto. Em certas passagens mais minimalistas, como “River Man”, gravada com Beck, o álbum parece excessivamente contido. Ainda assim, mesmo os momentos menos intensos mantêm um padrão técnico elevado.
“The Other Side” talvez não seja o disco mais acessível da carreira de Seu Jorge, mas certamente é o mais sofisticado. Depois de décadas transitando entre samba-pop, soul e música radiofônica, o cantor entrega uma obra madura, elegante e artisticamente ambiciosa. É um álbum que não busca hits imediatos, mas sim, uma permanência artística. E consegue.
Continue lendo
Governo Lula aposta em virada nas eleições dos EUA para regular big techs
O Palácio do Planalto pretende conseguir, ainda em 2026, a aprovação do projeto que estabelece regras de concorrência para os mercados digitais no Brasil, segundo a...
Deb Haaland faz história ao se tornar primeira governadora indígena dos Estados Unidos
A democrata Deb Haaland, de 65 anos, foi eleita governadora do Novo México na terça-feira (3), durante as eleições legislativas de meio de mandato dos Estados...
Filha de refugiados palestinos, Aber Kawas é eleita para o Senado de Nova York
A ativista Aber Kawas, de 34 anos, foi eleita para o Senado estadual de Nova York nas eleições de meio de mandato (midterms) dos Estados Unidos,...
A esquerda religiosa: líderes cristãos impulsionam vitória democrata nos EUA
As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas em 3 de novembro, mostraram o avanço de candidatos democratas que fizeram da fé cristã um...
“Deus não é binário”: quem é Talarico, o democrata cristão que conquistou o Texas
“Deus é masculino e feminino, e tudo o que existe entre os dois. Deus não é binário.” A declaração de James Talarico, feita em 2021, tornou-se...
Você viu todas as matérias.
Não foi possível carregar. Toque para tentar de novo.





