Antes de me despedir, a visão das quedas d’água iluminadas é a última lembrança de muitas guardadas para não esquecer. “Difícil abandonar os lençóis macios, arrumar a mala e voltar”. Os dias no Belmond Cataratas, em Foz do Iguaçu, ficaram na memória. E ter tão pertinho o chef Luiz Filipe Souza é inédito. Ele que em abril conquistou as três estrelas do Michelin para o Evvai, em São Paulo, cozinha ali, a uma hora de Curitiba.
No hotel, tudo chamava atenção, imagine ter as cataratas no jardim. Além disso, os projetos desenvolvidos com as comunidades e as referências indígenas ao nome dos espaços. O Terraço e o Restaurante Y vêm do fonema YY (ii), “representação de água em guarani, cujo léxico foi desenvolvido a partir de fonemas do português e do espanhol. Radical da palavra Iguaçu ou Yguaxu, que significa água grande”.
Da área financeira para a cozinha, sem nunca ter pensado antes na profissão de cozinheiro. A memória marcante da mesa como um lugar de carinho e boas lembranças, inclusive com o pai, recém-falecido na época, desencadeou um momento de virada: “proporcionar para outras pessoas o que a comida representava para mim, criar conexões verdadeiras e despertar sentimentos”. Pronto, transformou-se em paixão, que ele diz ter abraçado para o resto da sua vida. “Uma escolha muito feliz”. Alguém desconfia que não? Prova são os toques lúdicos nas criações quando, por exemplo, brinca com o seu iPad e ilustra cartões que vão contar a história de pratos e ingredientes. Mas não é só isso.
Espantar o medo
Mudo para a minha experiência. Mais uma vez, sobre os medos que carrego. O primeiro é o de altura, que tenta me paralisar. Uma vez, em uma cobertura em construção, desci a escada agachada, deslizei para baixo degrau por degrau, escorregando como uma lesma. Andar na passarela suspensa, alta e de piso vazado ao lado das Cataratas, aumentou a sensação de “o que estou fazendo aqui”. Disfarcei. Desconfio que a inflamação do labirinto (ouvido interno responsável pelo equilíbrio e pela audição) acentuou o problema que me persegue. Talvez a culpa seja da complexa arquitetura do órgão que não decifro. Se dividisse a paúra com alguém talvez fosse mais fácil, a vergonha não deixa.
Um dos anfitriões parece que percebeu, tocou-me no braço, abriu caminho e levou-me à beiradinha da plataforma. Quase dez horas da noite e o grupo ali – privilégio exclusivo para hóspedes, que têm acesso às quedas de água em horários exclusivos e a ausência de multidões depois das 17h e até às 9h. Tirei uma foto com o luar iluminando as águas e respirei fundo. O “estive aqui” estava garantido. A emoção também, agradeci. Permaneci quieta em cima da estreita faixa coberta sem olhar para baixo, invejando os que se debruçaram na mureta. A noite estava incrível, mas o arco-íris ficou só na imaginação.
Mas onde está o medo? Como ele é formado? Está no meu pensamento e na memória antiga ou foi absorvido de alguém? Pensarei nisso na próxima vez. Tento entender. Por fim, a água me acalmou (um pouco).
Tanta coisa passa pela mente da gente. Imagino na cabeça dos jovens em treinamento militar. Em passo acelerado pela estrada do Parque Nacional do Iguaçu, gritavam palavras assustadoras, tarde da noite. “Você nunca será melhor do que eu” – uma das frases mais leves, trouxe outro medo: o do futuro. Pode ser a conspiração em curso entre os controladores reptilianos e os amorosos pleiadianos, as duas raças de extraterrestres populares na ufologia mística, que estão entre nós. É o que afirmam.
Conhecer a história
Esqueço da ameaça. Não sei dizer o que foi melhor nessa semana longa de apenas três dias. Não encontrei defeito no serviço ou nas instalações do hotel construído dentro de um grande pedaço da Mata Atlântica, na América do Sul. A área integra os 185.262 hectares do parque, declarado Patrimônio Mundial Natural pela Unesco em 1986. Até achar o meu quarto, no labirinto entre 187 apartamentos e suítes, fazia parte. Exercitar a atenção é preciso.
De repente veio a vontade de conhecer mais sobre a história de Álvar Nunez Cabeza de Vaca, o primeiro homem branco de quem se tem registro de ter visto as cataratas, durante uma expedição a caminho de Assunção. As anotações dele falam do medo dos indígenas, que acabaram ajudando o grupo faminto que comandava. Tornou-se um defensor do povo amistoso, assustado pela dizimação deles pelos europeus. Por conta disso, foi preso e enviado para o exílio. O falecido jornalista Fábio Campana romanceou as conquistas e o último dia de vida dele.
Coloco Álvar Núñez na lista de leituras e reconheço que os projetos com a comunidade Avá-Guarani mereceriam muito mais do que estas linhas. O hotel é um dos principais apoiadores financeiros e logísticos de projetos, como o de monitoramento e conservação da onça-pintada na Mata Atlântica; e o de arte junto à comunidade indígena localizada na aldeia Tekohá Ocoy, em São Miguel do Iguaçu, em parceria com a organização Cidades Invisíveis. Durante este ano, vão acontecer diversas oficinas de fotografia, muralismo, grafite, cerâmica, desenho e pintura em tela conduzidas por artistas convidados. As obras ficarão expostas no hotel e a renda revertida integralmente ao colégio local. Em Guarani, o nome do projeto quer dizer “criar a partir de boas memórias”.
Olhar de cima
O sol descia e eu subia com passos apressados as escadas estreitas da torre, no prédio principal. Não queria atrasar o compromisso. Quase esbarrei em um casal. Vi a pequena mesa com duas cadeiras, pensei em uma taça de champanhe ali. Passei por ramos verdes e flores coloridas, com pássaros, até chegar ao topo. Descobri depois de ler uma placa que os saíra-sete-cores gostam de morar ali. Estão nas pinturas do artista plástico João Incerti. O rosa suave das paredes do hotel parece reflexo das nuvens perto da faixa de vermelho intenso que inunda o horizonte. Fácil entender por que escolheram a cor dos prédios do hotel. O brinde de quase todos os dias é o pôr do sol e a visão das cataratas. No meio do gramado um casal faz piquenique. O vento balança as folhas das árvores. Desci as escadas, errei o lugar. Mas o céu estava certo.
Sentir o vento
Na chegada, antes de entrar no Belmond Cataratas, olhei para as bicicletas, também cor de rosa, estacionadas na calçada. Não sairia dali sem dar uma voltinha. Foi mais que isso. Onze quilômetros de retas beirando a estrada do parque em alta velocidade, com o vento espalhando o cabelo debaixo do capacete e inflando o casaco; em muitas curvas por dentro da floresta, radar acionado para avistar os bichos (que não apareceram); nas subidas de testar o fôlego; às vezes eu sozinha lá na frente do grupo entregue à liberdade; às vezes lá atrás esbaforida para alcançá-los; conversas soltas pelo caminho; a espontaneidade da criança que ainda existe guiando; e a verdadeira meditação na ausência de pensamentos. A pista é bem sinalizada. Estava tão embalada que não deu tempo de pensar que estava passando por uma ponte que revelava o rio com correnteza embaixo. Final do passeio na hora que a chuva começou.
Fugi do recomendado Macuco Safari, não faça isso. A adrenalina no bote de borracha passando nas cataratas e banho de água gelada eram proibitivos para os ouvidos. Quantas desculpas damos todos os dias?
O sol batendo nas espreguiçadeiras em volta da piscina era o afago de que precisava, um livro e um shot revigorante não poderiam ser mais certeiros.
Olhar as águas
Não contava avistar uma das sete maravilhas do mundo tão cedo. Nunca é demais. O espetáculo no território paranaense não cansa o olhar. E Foz do Iguaçu tão perto de Curitiba. Aproveitei. Desta vez, desci até as cataratas acompanhada por histórias e explicações esotéricas que não conhecia. Acredite ou não, a potência da natureza acalma. Segui com uma guia do Belmond Cataratas para a prática de exercícios respiratórios e bioenergéticos para descobrir, com uma explicação científica, por que nos sentimos tão bem ali. Um medidor de íons negativos do ar mede os produzidos pelas águas e pela floresta subtropical. Outros programas são oferecidos, pode-se explorar constelações, a Via Láctea e planetas, e conectar-se com histórias ancestrais guaranis. Admirar a fauna e a flora da floresta é um privilégio sempre à disposição. Minha pedra da sorte tirada da bolsa da terapeuta não previu fortuna, mas intensificar a contação de experiências vividas. Coincidência, a mesma para duas comunicadoras do grupo. Quem tirou a da fortuna duas vezes não se lembrará de mim.
Chegando às principais e maiores quedas, incontáveis pássaros dançavam na nossa frente em um balé. Parecia ensaiado porque viravam para um lado e para outro sem sair da formação. Fechei o casaco e o capuz, sobraram os olhos e o nariz para fora. O vento empurra milhares de partículas de água para molhar quem desfila pela passarela, ninguém se importa. Na saída, as crianças gritam, os quatis não ligam, raspam os pedaços de coco com as unhas, depois metem o focinho para tirar lascas da fruta.
Voltamos a pé para o hotel. A estrada é tranquila, não fosse o tráfego de caminhões na obra de ampliação do parque. Escutei com atenção as histórias da família nômade da guia venezuelana. Nunca conheci ninguém com uma trajetória de mudanças assim. Acho que isso é viver de verdade.
Olhar as aves
A chegada com chuva ao Parque das Aves não assustou. Apenas mais um banho. Nem estranho mais. Foram três horas sem sentir o tempo passar entre muito verde, aves, répteis e mamíferos. Esperávamos o fotógrafo do grupo capturar o melhor ângulo. Não demorou muito e a chuva foi minguando, mas não abandonamos as capas de plástico mesmo eu me sentindo ridícula. A minha ia até os pés. Pingos pesados ainda caíam dos galhos mais baixos das árvores com o vento. Um cai bem na minha testa. Os espaços das aves são tão altos e arborizados que em alguns pontos quase não se veem as telas.
Penso no casal que resolveu resgatar espécies ameaçadas e colocá-las em um ambiente seguro. O amor por um papagaio transformou a vida da veterinária alemã Anna-Sophie Helene e uniu os dois – ela e Dennis Croukamp – às aves. Chegaram em Foz em 1993 e logo depois inauguraram o espaço. Hoje, é a filha, Carmel, que cuida. É o único parque focado na conservação de espécies da Mata Atlântica.
Ali, finalmente, vi a palmeira Juçara ao vivo. Tão fininha, comprida e em extinção. Provei um picolé da fruta e agora estou atrás do açaí dela sem aditivos e conservantes. Um pássaro grande e colorido fica me encarando. Faço uma selfie nossa. Vi um casal de araras namorando. Trocavam carinhos bem encostadinhos um no outro. Tristonha em seus pensamentos, a ave de pelagem azul profundo, solitária, poderia ser uma viúva ou viúvo. Eles não se casam duas vezes. Algumas davam rasantes entre as pessoas por pura diversão, sabem que são bonitas. Os guarás carregam tons de vermelho, eram brancos quando chegaram. Os papagaios gostam de conversar, que dúvida. Os pássaros mimetizados em troncos de árvores (esqueci o nome deles) provocavam o olhar, difícil reconhecê-los. As borboletas usam o mesmo artifício contra os predadores.
A placa mandava respirar fundo, obedeci. O painel mostra que apenas 8% da Mata Atlântica está preservada, antes alcançava o Nordeste. Mais um choque. Jabutis, curiós, cobras e sabiás estão no caminho. Vi a estranha harpia de longe, ainda bem, é assustadora. Paramos até para observar teias de aranhas. A de uma espécie, cujo nome não lembro mais, é dourada e linda. Quando o nosso guia achou uma teia abandonada tirou um pedaço para que observássemos a elasticidade. Sensação esquisita pegar no fio, soltei logo. Impossível não lembrar da “maman”, a escultura surrealista da aranha de Louise Bourgeois, com nove metros de altura, 10 metros de largura, oito patas, ventre com ovos. As memórias de infância e da mãe deram origem à obra e me perturbaram quando andei embaixo.
Olhar os peixes
Mesmo com o passo apressado nos detivemos em vários tanques no AquaFoz inaugurado em novembro de 2025. A dança de abre e fecha e a mudança de cor das águas-vivas e dos corais nos capturaram. Perseguimos os tubarões sem sucesso. Foi impossível não parar para ver o cardume dos coloridos e famosos nemos. Incontáveis peixes de água doce e salgada em espaços enormes, como se estivéssemos com eles no fundo de rios e mares. O olhar parou muitas vezes para observar as peripécias das raias. Achei que temeria o espaço com água por todos os lados, mas encarei tranquilamente. Difícil observar de perto a beleza dos cavalos-marinhos, nada mais delicado, não tão fáceis de encontrar. Espécies endêmicas – o rio Iguaçu tem mais de 70% – estavam lá ao lado das ameaçadas, como o Surubim-do-Iguaçu, que é foco de projeto de conservação com a Universidade Estadual de Maringá. Penso de novo em ser vegana ao olhar os peixes de perto.
Lá fora a chuva deu trégua, mas deixou o frio. O horário avançado e a temperatura fizeram com que as bicicletas fossem abandonadas. O limite de velocidade na estrada do parque – 40 por hora – como o fio da aranha, permitiu a conversa esticar-se. Não imaginava que me levaria a outra viagem não planejada. Preciso contar.
Comer
Todo o cuidado refinado nas instalações aparece na cozinha. O final de tarde no Terraço com o pôr do sol logo ali convida a provar pastéis de palmito com vinagrete picante ou bolinhos de caranguejo. Difícil não lamber a ponta dos dedos. Fiquei observando jovens casais bonitos e bem vestidos que entravam no restaurante. Às vezes paravam para conversar. Eu prestava atenção. A entrada do restaurante é pelo terraço.
Ostras, carpaccio de carne seca ao sol com rúcula, coxinha de pato. Vinhos nacionais e drinks. Pão de mandioca, peito de peru defumado, maionese de coentro. Ceviche de caju arrebatador.
Intervalo
Afora a decoração do restaurante Y, de janelas arredondadas com gradeado de madeira, como nas antigas casas de fazenda colonial, piso de parquet original, sofás arredondados, luminárias enormes de palha e um imponente bar de madeira suspenso por esferas, a beleza está ali e também na comida, é uma marca do chef.
Pão de milho, biscoito de polvilho, requeijão de leite fresco. Bem-feitos snacks de chipa – o salgado típico do Paraguai, preparado com queijo meia-cura, pimenta Muripi ou Baniwa fermentada e papada de porco Moura curado -, e a “carne de onça” – patrimônio cultural e de natureza imaterial de Curitiba, nossa conhecida servida em uma tartelete. Porco Moura. Moqueca.
Intervalo
Temos um craque na cozinha, sabe criar e liderar. Isso se repetiu em todas as refeições. Conta também que estávamos em um grupo em que dava gosto estar. Prova-se a potência do pirarucu suculento, acompanhado por tapioca suflada e açaí com missô (olha isso!). Um alento vê-lo contracenar com o missô.
Intervalo
Ovo dourado com tucupi e mandioca, casquinha de siri bem úmida e temperada, a versão do barreado, prato típico do Paraná, com farinha de uarini.
Intervalo
Três propostas de harmonização de vinhos oferecidas: vinhos brasileiros ou internacionais ou um híbrido de ambos, o que provamos, contempla vinhos com mínima intervenção e mantém a sintonia entre taças e pratos. Doces e drinks vêm da equipe igualmente premiada do Evvai: da confeiteira Bianca Mirabili e do sommelier Marcelo Fonseca. Ela foi eleita como melhor chef pâtissière da América Latina pelo Latin America’s Best Restaurants e ele pelo Guia Michelin.
Intervalo
O sorbet “caju amigo” refresca e derrete a gente. Bolo de rolo pernambucano troca goiabada pelo cupuaçu. Engana o cérebro. A acidez conquista.
Mais comida
Em uma das noites frias, celebrávamos a arte da coquetelaria no Bar Tarobá, o mais clássico dos ambientes do Belmond Hotel das Cataratas. O anúncio de que a chuva havia parado e a lua aparecido nos interrompeu. E a comida do The Falls Mixology – com Stephano Giglio, chef de bares do Belmond Copacabana Palace, destaque na coquetelaria atual carioca – foi perfeita. As bebidas autorais, sofisticadas e criativas na medida, preparadas com a The House of Suntory, referência mundial em destilados japoneses premium, surpreenderam até quem desvia de destilados. Só mesmo a promessa de uma lua cheia iluminando as cataratas para abandonar a experiência.
Antes de voltar, ainda deu tempo para o último e muito farto café. Agradou até quem desvia de doces pela manhã. Duas turistas alemãs na varanda com um prato de frutas olhavam os pássaros comendo nas suas mãos. Tiravam fotos. Alguém aponta para tucanos na árvore mais próxima. Alvoroço entre alguns hóspedes que querem ver de perto.
As piscinas completam o cenário do restaurante Ipê. Outro chef, o Luiz Guilherme, cuida do cardápio variado servido no almoço ou no jantar. Moqueca de banana da terra leva direto para a Bahia. Vieiras com purê de cenoura e mandioca fermentada abrem um sorriso de satisfação. Ninguém quer pecar todos os dias, mas é difícil resistir ao “pavê Ipê”.
As fotografias de Victor Collor fizeram todo mundo ficar com vergonha ao olhar para o seu rolo de imagens no celular. As histórias e o entusiasmo de Gigi Vilela nos levaram para longe. Pedro Perestrelo, Cassiano Vitorino e Verônica Chavez, além de Luiz Filipe e Letícia Sebben, da Agência Síbaris, foram anfitriões como nos velhos tempos, acolhedores e elegantemente discretos, gente que conhece o métier.
A origem
O casal excêntrico e de bom gosto, o engenheiro James Sherwood e sua esposa, doutora em botânica, resolveram criar um “belo mundo”, a rede de hotéis Belmond. Pinçaram locais que tiram o fôlego da gente. Descobri que ele começou a construir o patrimônio com a visão que teve de alugar contêineres para facilitar a vida das empresas (ou dos carregadores) nos portos. Deu certo. Fizeram fortuna. Daí compraram a linha ferroviária do Orient Express: Paris – Veneza. Inauguraram o trajeto e chegando à Itália viram que precisavam de um hotel, compraram o Cipriani, de Guiseppe Cipriani. Não pararam mais. Em 1989, compraram o Copacabana Palace da família Guinle. E continuaram comprando. Em 2016, deixaram de usar o nome Orient Express e passaram por um rebranding que resultou na marca Belmond. Os outros seis nomes concorrentes na escolha nunca foram compartilhados. Até que em 2019 foi o inverso, a LVMH comprou a rede da família. O aporte garantiu que a pandemia não prejudicasse os negócios com a paralisação das viagens. O Belmond Cataratas do Iguaçu é o único do Brasil e da América do Sul com as cinco estrelas, a cotação máxima, pela Forbes Travel Guide.
Projetado pelo arquiteto mineiro Ângelo Murgel, o casarão do hotel cor de rosa flutua entre o rural, o natural e o moderno. Levou dez anos para ser concluído, a inauguração aconteceu no governo JK, em 1958. Sempre foi hotel, apesar da fantasia de escutarmos ter sido uma fazenda de café. A aposta do governo Vargas era preservar florestas e paisagens criando parques nacionais e assim incentivar o turismo. É o Brasil que quer se mostrar ao mundo e consegue.
O final
“Quem não tem comichão na língua, tem nos pés”, meu caso e do cineasta e escritor Werner Herzog que foi a pé até Paris. Mas isso é outra história. Tento economizar as palavras e aceito todos os convites para andar por aí. Vou meio em silêncio. A leitura de “Caminhando no gelo”, de Herzog, me acompanhou até aqui. Talvez tenha influenciado frases secas pelo texto.
Tenho sede de conhecimento e (quem sabe) de cura pela água. A viagem termina diante da força da natureza. Vou procurar a origem dos spas. Um lugar onde a água promete devolver alguma coisa que perdi pelo caminho. Não tenho ideia de onde foi. Talvez precise ir até Spa, na Bélgica, famosa pelas águas termais para descobrir. Na manhã de despedidas para mim, que sairia mais cedo, agradeci o convite e a companhia com um abraço demorado em cada um. A tentativa de dizer que fui feliz.
Vi que estava me agarrando a um ritmo, quando na verdade preciso me entregar. Em vez de descer mais uma vez até as cataratas sem a multidão de turistas, meditei vendo uma queda de água de longe. Procurei a explicação. Apegada à mente que precisa estar segura. Agarrada ao medo do desconhecido (não é apenas de altura). Às vezes observo de longe, não participo. “O mundo se revela para quem viaja a pé”. É preciso experimentar. Falei que os três dias pareceram muito mais.
