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EM BUSCA DO AGENTE SECRETO

EM BUSCA DO AGENTE SECRETO

Por Cleisson Vidal
Agora que o grande trabalho promocional se encerrou e Wagner Moura, Kleber Mendonça e equipe podem descansar um pouco após o tour de force de levar 2,5 milhões de espectadores somente nos cinemas brasileiros, premiações mundo afora, críticas e comentários aos borbotões, é hora de comentar sobre O Agente Secreto.

Durante todo o período em cartaz foi curioso acompanhar as devidas loas ao filme e outros comentários divergentes, acentuando a “falta de explicação” de certos fios da história, de certas cenas “durarem muito sem nada acontecer” e, a mais gostosa, “cadê o James Bond”? Afinal, não é um filme de agente secreto?

Esqueçam Sean Connery, Tom Cruise ou Tamar. Agente secreto trata sobretudo de informação, esse bem precioso exposto em relatórios. E relatórios dizem muitos sobre Estados, governos, suas estruturas de poder, projetos, interesses e atos. 

Um filme que bem espelha o agente secreto e o poder da informação é “A Vida dos Outros”(2007). O trabalho daquele agente é monitorar artistas com grampos e escutas na ex-Alemanha Oriental. Então, seu ofício é ouvir, ouvir, ouvir e relatar, relatar, relatar. Enfim, espionar. Assistam! E há tantos outros maravilhosos, como A Conversação (1974). Mas, acima de tudo, é a linguagem cinematográfica operando temas políticos, sociais e humanos.

Atualmente há outros modelos de agentes para se entreter, como a talentosíssima agente Tamar, em Teerã, uma série sob medida para validar, antecipadamente, guerras e arbítrios governamentais nos corações e mentes de populações semitas e ocidentais.

Mas, e o nosso Agente Secreto? O esgarçar do tempo na primeira parte do filme nos permite o prazer de acompanhar a história e também ficar interrogando mentalmente por longos minutos: quem é esse personagem? O que ele vai fazer? Ele é da “luta armada”? Vai escancarar e destruir a reputação de empresários e militares inescrupulosos e sua rede de facínoras assassinos? E esse corpo insepulto na primeira cena? E essa turma do Edifício Ofir? Por que estão perseguindo o Wagner? Ele vai perseguir alguém? Seria o filme o “agente descoberto”? São perguntas sem fim que mentalmente podemos construir enquanto o filme toma sua direção e nos leva para o drama vigoroso de Marcelo (Wagner Moura), na busca pelo seus elos familiares, e necessidade de fuga pelas vias, galerias, lojas e botecos de Recife, que o obriga atravessar o Cine São Luiz e dar uma piscadela a Jean Paul Belmondo, como um agente secreto (provavelmente no genial O Magnífico) que passa na tela.

Foto:
Paulo Pinto/Agência Brasil

Agentes secretos, investigadores, legistas, pesquisadores, historiadores, astrônomos e cientistas são atividades que se encontram, na medida que são movidos pela curiosidade e a e rigorosa aferição de seus objetivos. 

Os cientistas da história, como agentes da memória, buscam organizar informações que estão fragmentadas em relatórios, cartas, memorandos e toda sorte de suportes de informação, inclusive fitas K-7, como no filme, para construir memória. A memória, esse espaço que se constrói pelo viés histórico, e que vive sob disputa política e moral, é a grande beleza do filme. São as fitas K-7 que instiga nossa heroína, uma estudante universitária, a descobrir a história de vida de Marcelo, seu talento científico e sua moral em prol do bem público.

Assim, O Agente Secreto é a interrogação, o estranhamento, a dúvida diante da história. Seremos nós, espectadores, O Agente?

 No filme, escolhi uma agente secreta, a jovem bolsista que ouve horas a fio de antigas fitas cassetes com depoimentos de pessoas politicamente perseguidas nos anos 1970 que, de certa forma, é uma homenagem aos pesquisadores, professores e cientistas que a cada dia se esforçam para transmitir conhecimento, gerar ciência com integridade e que merecem todo o respeito moral e financeiro para seguir no exercício da profissão.

Esse texto é em memória de meu pai, falecido 10 dias antes de ir à sala de cinema para assistir a O Agente Secreto. Meu eterno Agente público. 

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