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Irã: A Anatomia de uma Intervenção

Foto: Reprodução/ EPA

Após os ensaios de 2025, os EUA e Israel desencadearam uma guerra ilegal e imoral contra o Irã. A grande imprensa tem cumprido, como de costume, o papel de desinformar e de manipular o público. Então, elucidaremos o assunto e situaremos essa agressão no contexto histórico de média duração, em especial a partir do fim da IIGuerra Mundial. Após o conflito global, ganhou força no Irã o sentimento popular de que o país deveria romper o ciclo de dominação econômica e política britânica para trilhar um caminho próprio de modernização e desenvolvimento.

Em março de 1951, sob a liderança de Mohammad Mossadegh, o movimento nacionalista levou o parlamento iraniano a aprovar a nacionalização da Anglo-IranianOil Company (AIOC). Naquela conjuntura, o xá Mohammad Reza Pahlevi, associado aos interesses britânicos, viu sua força política esvair-se e foi pressionado a sancionar a lei. No mês seguinte, Mossadegh tomou posse como primeiro-ministro. O Irã marchavarumo a uma monarquia parlamentarista democrática.

No governo, Mossadegh imprimiu políticas de independência nacional e de ruptura com a subordinação a Londres. A Grã-Bretanha, apoiada pelos EUA, embargou o petróleo iraniano e iniciou um boicote internacional ao país. O bloqueio isolou o Irã e produziu uma crise atroz. Em paralelo, em agosto de 1953, a CIA e o MI6 organizaram a Operação Ajax, por meio da qual foi perpetrado um golpe de Estado que destituiu Mossadegh e restaurou os poderes do xá. A construção democrática em curso foi revertida. Mossadegh foi preso, julgado e condenado por tribunais associados aos golpistas. Em decorrência, o Irã experimentou um longo período de arbítrio sob o comando de Mohammad Reza Pahlavi, sempre sob a tutela dos EUA.

No bojo da resistência a esse regime autoritário emergiu a Revolução Iraniana de 1979, marcada por duas fases distintas. A primeira resultou de uma frente ampla e plural, que reunia islâmicos, liberais, forças de centro e comunistas. Essa coalizão pretendia derrubar o xá e instituir uma república democrática. Em 1978, o movimento ganhou força até que, em fevereiro de 1979, o xá fugiu do país. Com a fuga, foi formado um governo provisório.

A instabilidade política dessa transição criou a oportunidade para a ação do grupo liderado pelo Aiatolá Khomeini, que havia retornado do exílio semanas antes. Khomeini capitaneou uma segunda ruptura da ordem, que desembocou no processo conhecido como Revolução Islâmica. Seu projeto não era uma democracia secular, mas a instauração de um Estado teocrático. Com organização superior, alicerçada nas mesquitas e em milícias populares, os islâmicos confrontaram seus antigos aliados, que acabaram sumariamente executados, perseguidos ou aprisionados. A coalizão democrática sofreu reveses irreversíveis em dois momentos cruciais que consolidaram o novo poder: o referendo que instituiu a República Islâmica (30 e 31 de março de 1979) e, posteriormente, a invasão da embaixada dos Estados Unidos (4 de novembro de 1979).

A ocupação da embaixada foi marcada pela captura de 52 reféns estadunidenses, entre diplomatas e cidadãos comuns. O impasse só foi solucionado em 20 de janeiro de 1981, dia da posse de Ronald Reagan, fruto de intensas negociações iniciadas meses antes, que resultaram no desbloqueio de ativos iranianos congelados nos EUA. Assim, a Revolução Islâmica não foi simplesmente a fase final de um processo único, mas uma “segunda revolução” que suplantou a primeira e transformou uma insurreição nacional e plural no regime teocrático que persiste até hoje.

Em face do exposto, sublinho que os EUA e a Grã-Bretanha conspiraram, desestabilizaram e sepultaram a jovem democracia iraniana em 1953. Adicionalmente, deram suporte ao autoritarismo imposto pelo xá Mohammad Reza Pahlevi ao país. Desse ponto de vista, as potências ocidentais carregam imensa responsabilidade pela destruição da democracia em edificação no Irã e são, historicamente, culpadas pelos autoritarismos impostos à nação.

 

Sidnei J. Munhoz

Historiador, Doutor pela USP, Professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É pesquisador em História Contemporânea, atuando em política internacional, Guerra Fria e relações Brasil-EUA, com forte produção acadêmica.

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