STF julga vínculo de trabalhadores com aplicativos: o que pode mudar?
O Supremo Tribunal Federal (STF) começa nesta quinta-feira (27) a analisar se motoristas de aplicativos podem ter vínculo empregatício reconhecido com as plataformas digitais. O julgamento do Recurso Extraordinário (RE) 1.446.336, que tem repercussão geral e corresponde ao Tema 1.291, deverá estabelecer um entendimento que servirá de referência para processos semelhantes em todo o país.
O processo envolve a Uber e uma motorista que teve o vínculo de emprego reconhecido pela Justiça do Trabalho. A empresa recorreu ao Supremo contra decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que havia mantido o entendimento de que estavam presentes os requisitos previstos nos artigos 2º e 3º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). O STF terá de analisar, portanto, se a relação entre a motorista e a plataforma pode ser caracterizada como uma relação de emprego.
A discussão, porém, vai muito além da Uber. O Supremo deverá enfrentar uma questão que ganhou força com a expansão do trabalho por plataformas digitais: Motoristas e entregadores são, de fato, autônomos ou estão submetidos a formas de controle que podem caracterizar uma relação de emprego?
Para olhar para esse debate sob uma perspectiva também técnica, os especialistas do GASAM Advocacia apoiaram o BFC na análise do tema. Segundo Nasser Ahmad Allan, advogado e sócio-fundador do GASAM Advocacia:

“A decisão do STF em relação a essa matéria pode afetar toda a racionalidade do mercado de trabalho brasileiro, se reconhecer os trabalhadores plataformizados como autônomos. É preciso dizer que o Supremo tem decidido constantemente contra os interesses de trabalhadores e trabalhadoras em matéria de Direito do Trabalho, mostrando-se fiel à racionalidade neoliberal de supressão ou mitigação de direitos sociais.”
Nasser Ahmad Allan
O reconhecimento do vínculo empregatício pode alterar significativamente a relação entre trabalhadores e plataformas. Caso seja reconhecida a existência de uma relação de emprego nos casos que se enquadrem nos critérios definidos pelo Supremo, os trabalhadores poderão ter acesso a direitos previstos na legislação trabalhista, como férias acrescidas de um terço, 13º salário, FGTS e proteção previdenciária, além das regras relacionadas à jornada e aos períodos de descanso.
Isso não significa, necessariamente, que todos os motoristas e entregadores passarão automaticamente a ser empregados das plataformas. O STF deverá definir os critérios jurídicos que deverão ser observados para identificar quando existe ou não vínculo de emprego.
A decisão também poderá ter impacto sobre a forma como as empresas organizam suas atividades. As plataformas argumentam que o modelo atual é baseado na autonomia dos trabalhadores, que podem escolher quando e quanto trabalhar. Do outro lado, trabalhadores e entidades que defendem o reconhecimento do vínculo sustentam que os aplicativos exercem formas de controle sobre a atividade que podem se aproximar da relação tradicional entre empregado e empregador.
“Esse debate não deveria ser travado no STF, pois, se às circunstâncias fáticas resultam em relação de emprego ou trabalho autônomo são de índole infraconstitucional, cuja análise deveria ficar restrita à Justiça do Trabalho”, reforça Nasser.
A chamada “subordinação algorítmica”

Um dos conceitos que ganharam espaço no debate é o de “subordinação algorítmica”. A expressão é utilizada para discutir se o controle exercido pelos sistemas das plataformas pode desempenhar função semelhante àquela exercida tradicionalmente por um chefe.
Entre os mecanismos analisados estão a distribuição de serviços, avaliações, definição ou influência sobre preços, estabelecimento de metas, incentivos e bloqueios ou desligamentos de usuários da plataforma.
O conceito, porém, faz parte da controvérsia jurídica e não representa uma conclusão já estabelecida pelo STF. O objetivo do julgamento é justamente definir os parâmetros jurídicos aplicáveis à relação entre trabalhadores e plataformas.
O Supremo realizou uma audiência pública sobre o tema em dezembro de 2024, reunindo representantes das empresas, trabalhadores, sindicatos, especialistas e outras entidades. A documentação e a transcrição da audiência foram disponibilizadas pela própria Corte.
Entregadores de aplicativo
Embora o processo que será analisado pelo STF tenha como parte uma motorista da Uber, a discussão sobre trabalho em plataformas também alcança os entregadores.
Outro caso levado ao Supremo envolve a Rappi, em uma controvérsia sobre o reconhecimento de vínculo de emprego de um entregador. A discussão ajuda a mostrar que o julgamento pode ter repercussões para diferentes modalidades de trabalho intermediado por aplicativos.
O debate, portanto, não se limita ao transporte de passageiros. Ele envolve uma transformação mais ampla do mercado de trabalho provocada pela expansão das plataformas digitais.
A decisão terá alcance nacional
O RE 1.446.336 foi reconhecido pelo STF como processo de repercussão geral. O Tema 1.291 trata especificamente da possibilidade de reconhecimento de vínculo de emprego entre motorista de aplicativo de transporte e a empresa que cria e administra a plataforma digital.
Na prática, a definição do Supremo deverá estabelecer uma orientação para processos semelhantes que tramitam no Judiciário brasileiro.
O julgamento previsto para 27 de agosto não significa necessariamente que a decisão final será conhecida no mesmo dia. A análise pode ser interrompida ou continuar em sessões posteriores, conforme o andamento do processo.
BookmarkContinue lendo
Vitória de Lula! Senado aprova fim da escala 6×1 por 75 a 1
O Senado aprovou nesta quarta-feira (14), por 75 votos a um, a proposta que encerra a escala 6×1 e reduz de 44 para 40 horas a...
PEC da Segurança de Lula avança e pode mudar a atuação das polícias no Brasil
A PEC da Segurança Pública, prioridade do governo Lula para integrar as polícias e enfrentar o crime organizado, teve sua votação concluída nesta quarta-feira (14) na...
Bethânia, Caetano e mais dez atrações no festival Clássicos do Brasil, que acontecerá no Rio
Maria Bethânia abrirá a quarta edição carioca do festival Clássicos do Brasil em 28 de novembro, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, com o...
Líder do PL admite que Flávio Bolsonaro vai votar fim da 6X1 agora e depois propor salário por hora trabalhada se eleito
O líder da bancada do PL na Câmara Federal, deputado Sóstenes Cavalcanti (RJ), admitiu, nesta quarta-feira, que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vai votar favoravelmente à PEC que...
Fórum de servidores públicos denuncia censura no Instagram a pedido de Flávio Bolsonaro
O Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais (Fonasefe) denunciou, nesta terça-feira (13), a retirada de publicações de seu perfil oficial no Instagram, por determinação...
Você viu todas as matérias.
Não foi possível carregar. Toque para tentar de novo.





