Bethânia celebra 60 anos de carreira com disco e show completo no YouTube
Chegou às plataformas de streaming na sexta-feira (6) o registro ao vivo da última apresentação do show “Maria Bethânia – 60 anos de carreira”, comemorativo às seis décadas de carreira da cantora. O espetáculo estreou em setembro de 2025, no mesmo Vivo Rio (RJ) no qual foi captado em áudio e vídeo.
“Sessenta anos de carreira é muito tempo. Eu comecei muito menina e vim aprendendo com a música, com a vida, com as canções que me chegavam, com o movimento dos músicos, dos maestros, com as escolhas. Quase como estar reestreando em Opinião: foi essa a sensação que tive para comemorar os sessenta anos”, pontua Maria Bethânia.
O álbum, que será editado na versão física como CD duplo, traz duas faixas até então inéditas, que Bethânia apresentou ao público nesta turnê: “Balangandã”, de Paulo Dáfilin e Roque Ferreira, e “Se Não Te Vejo”, composição de Pedro Abrunhosa. O repertório inclui ainda “Palavras de Rita”, letra feita por Rita Lee especialmente para Bethânia e lançada anteriormente como single, e “Vera Cruz”, agora em sua versão ao vivo.
Interseção entre a linguagem musical e a dramaturgia, o audiovisual do espetáculo “Maria Bethânia – 60 anos de carreira” estreia no canal da Biscoito Fino no Youtube no dia 10/11. Extraído do espetáculo, o videoclipe de “Olhos nos olhos” estreia no YouTube junto com o álbum digital.
Ficha Técnica:
Maria Bethânia: Roteiro
Otavio Juliano: Direção visual e concepção
Maneco Quinderé: Direção de iluminação
Mari Pitta: conceituação estética e projeto cenográfico
Gilda Midani: Figurinos Maria Bethânia e banda
Duda Munhoz: Colaboração de projeto cenográfico
Luciana Ferraz/ Interface Artes e Filmes: Criação e design de vídeo cenário
Eucanaã Ferraz: Pesquisa de textos e poemas
Ana Basbaum: Coordenação Geral
Opa Produções Artísticas: Produção geral
Banda:
Jorge Helder: maestro, baixo e bandolim
Jonatan Harold: piano
Rodrigo Tavares: teclado
Paulo Dáfilin: Violão, viola e guitarra
Pedro Sá: violões e guitarra
Marcelo Martins: Sax tenor
Jessé Sadoc: trompete e flugelhorn
Marcelo Costa: Bateria e percussão
Boka Reis: Percussão
Gabriel Policarpo: Percussão
Fael Magalhães: Arranjo de vozes e vocal
Janeh Magalhães e Jenni Rocha: Vocais
Produção Musical: Pedro Guedes e Thiago Gomes
Arranjos: Pedro Guedes, Thiago Gomes, Paulo Dafilin, Alberto Continentino e Pretinho da Serrinha
Gravado no Vivo Rio, nos dias 17 e 18 de janeiro de 2026
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Ter o coração daquilo
Texto em um ato
por Eucanaã Ferraz
(Imagem: Divulgação)
Este álbum se passa numa só noite.
Levou sessenta anos para ser feito.
É festa.
Abre-se com uma síntese luminosa e veloz: – saúda-se o sagrado: as ayabás, a Rainha dos Raios; – anuncia-se o que partilharemos: um “momento de prece e de carnavais”; – e logo dá-se o entendimento de tudo: “há momentos que se casam com canção” e fazer tal aliança é a profissão daquela que celebra conosco a vida e o trabalho, a voz e a plateia. Mas não há pausa, somos apanhados pela indignação de “Podres poderes”. O canto soa quase “falado”, tamanha é a sua nitidez, frase a frase, palavra a palavra, sílaba a sílaba. Força e retidão.
Entendemos, ou sentimos, que será – já está sendo – uma noite “de calma”, mas também “de vento”. A intensidade rítmico-retórica continua em “Baioque”: “Eu odeio e eu adoro numa mesma oração”. Estamos no reino áspero e dançante do blues. O roteiro é desde o início uma declaração de princípios – estéticos? existenciais? políticos? – em ação. Palco! Drama!
Uma quase-pausa vem após “Baioque”, mas não para suavizar a cena, pois, ao contrário, o silêncio emoldura o trauma e a veemência das palavras de Davi Kopenawa e Bruce Albert em “A queda do céu”:
“Mais tarde, na floresta, talvez morramos todos. Mas não pensem os brancos que vamos morrer sozinhos.”
O roteiro vai buscar outra ponta do Brasil com “Ofá”, introduzida com o canto coral a cappella sul-africano de Janeh Magalhães, Jenni Rocha e Fael Magalhães. O quadro está perfeito para “Kirimurê”, voz altissonante e reivindicatória dos antigos donos da terra – o caboclo, o tupinambá, agora expropriados do chão.
Toda a sequência é um só canto, palavra e ritmo de guerreiros e guerreiras, cantorias de luta, de cuidado e trabalho. Em uma única voz, canta um coral; nele ouvimos a menina que há seis décadas cantou “Carcará”. A voz de agora insiste e canta ainda a fome de sua gente.
O fragmento de Água viva parece fundir, nas poucas palavras de Clarice Lispector, tudo o que se passou até agora e o que ainda virá:
“Não se compreende música; ouve-se. Ouve-me então com teu corpo inteiro”.
O canto se exibe consciente, ou ainda, lúcido, e nos faz um convite, mas o que exige de nós não é menos que a entrega total.
Para tanto, somos confrontados com a presença eletrizante de A cena muda (1974), numa sequência perturbadora. Aqui está o espírito do espetáculo dirigido por Fauzi Arap – a lâmina de tudo, meio século depois, permanece afiada, posicionando-se fora do poder: “eu, bandoleiro, eu, o proscrito, eu, o fora da lei” (“Encouraçado”).
Há uma desobediência e uma recusa radicais: “Debaixo do chapéu aparento um cangaceiro” (“Taturano”), “Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe” (“Resposta”), “Espelho meu, existe alguém pior que eu?” (“Demoníaca”).
Os versos de Herberto Helder formam um exuberante buquê de imagens em louvor das mulheres e abrem uma sequência de canções de amor, porque o sentimento virá à cena como experiência feminina. Então, salta do acervo de sucessos, vibrante e cheia de suingue, “Cheiro de amor”, o jingle de motel que a ousadia de Bethânia, em Mel (1979), trouxe para outro mundo, para o alto mundo. Em “O lado quente do ser”, ouvimos a mulher que “não quer nada de menos”, como se cantassem com Bethânia as vozes tutelares de Dalva de Oliveira ou Nora Ney.
(Foto: Guilherme Nabhan)
Segue-se o colorido intenso, bem-humorado e bem-disposto de “Samba do grande amor”. Excepcionais o arranjo e o coro do público, bem como o trompete de Jessé Sadoc e o sax tenor de Marcelo Martins. Os arranjos emprestam ao espetáculo grande parte de seu frescor, pois fazem as canções mais conhecidas soarem renovadas. Têm diferentes assinaturas: Thiago Gomes, Pedro Guedes (também diretor musical) e Jorge Helder (também maestro).
É o momento adequado para a apresentação dos músicos. Bambas, todos. Além das qualidades de cada um, soam muito bem em conjunto, equilibrados entre si, vibrantes e seguros.
“Se não te vejo”, inédita na voz de Bethânia, não apenas retoma a sequência de canções de amor para concluí-la, como assinala a velha intimidade com o fado, como se Pedro Abrunhosa trouxesse com ele Amália Rodrigues, assim como Herberto Helder apareceu como um outro Fernando Pessoa.
Concluída a primeira parte, compacta e cristalina, fica esse rastro de ópera, escola de samba, festa de rua. Segue-se uma suíte instrumental, brasileiríssima, com um belo “Maracatu”, oportunidade para nos concentrarmos na excelência da performance dos músicos. Não há Brasil sem tambor, por isso a cozinha exuberante, nas mãos de Marcelo Costa, Boka Reis e Gabriel Policarpo. O teclado de Rodrigo Tavares e o duo de cordas com Paulo Dafilin e Pedro Sá garantem a vibração exigida pelos arranjos.
Brasileiríssima também é a sequência que abre a segunda parte da noite. O vocabulário é brasileiro, ritmos e palavras vêm das matas, das ribeiras, das florestas e sertões. “Tocando em frente” é sempre grave e o público reage cantando.
Bethânia tem uma potente inteligência dramatúrgica, faz uma canção projetar-se na outra de acordo com sua vontade, seja em aliança harmoniosa ou com atrito. No salto de “Tocando em frente” para “Fé cega, faca amolada” (eloquente recorte de Os doces bárbaros, 1976), a diferença entre ambas é tão flagrante que quase encobre o que é continuidade nessa vizinhança: a vida é caminhada, e para caminhar é preciso “tocar em frente” com “paixão e fé”.
Assim, na próxima sequência, celebra-se uma forma específica de adesão ao sagrado, que logo reconhecemos em “Yemanjá” e “Rainha do mar”. Mas é impossível contar o que nos vem à memória nesse capítulo, pois é sem-número o universo místico e religioso afrobrasileiro trazido ao palco por Bethânia em todos esses anos. No mesmo alforje, vieram os sambas-de-roda de sua terra, presentes aqui, vibrando a alegria do canto coletivo.
“Diz que fui por aí” traz o início da caminhada – era 1965 quando Maria Bethânia veio para o Rio de Janeiro a fim de substituir Nara Leão no espetáculo Opinião. Mas nada nesse aniversário está preso ao passado, as canções se lançam como elos de uma corrente, e versos como “eu estou por aí, sempre pensando nela” ressoam em “nem que eu rastejasse até o Leblon, não iria encontrar” (“Mares da Espanha”).
É estupendo ouvir esses versos de Ângela Ro Ro cantados pela primeira vez por Bethânia, mas sobrevém outra canção de Ângela, agora um antigo sucesso, “Gota de sangue”, com a voz acompanhada pelo piano de Jonatan Harold em concentração máxima.
“Balada do lado sem luz”, oportuna ida ao repertório de Pássaro proibido (1976), é tanto comentário sobre o sofrimento e a dor – “o mundo da sombra” – quanto promessa, confiança de que o canto pode iluminar vidas.
É ainda a navegação – “navegar, descobrir” – e é sempre o canto que está em cena, falando de si mesmo, de suas travessias, por isso a próxima composição vem também de Pássaro proibido (1976): “Olhos nos olhos”, presença incontornável, pois marca o momento em que a voz de Bethânia atravessou antigas fronteiras de gosto e de classe.
Pensamos, claro, em Chico Buarque, presente nessa noite desde “Baioque”, no quanto ele e Bethânia formam uma unidade – qualidade daquilo que não pode ser dividido – à qual se integra a presença de Caetano Veloso, ele, que nos deu as boas-vindas nessa noite; mas agora, suas palavras vêm apenas faladas para falar sobre o canto:
“Cantar é mais do que lembrar / é mais do que ter tido aquilo então / mais do que viver, do que sonhar / é ter o coração daquilo”. A definição é perfeita na sua exatidão de grande poesia. É uma noite em louvor do canto.
Maria Bethânia não se cansa de agradecer. Há dez anos, quando festejava cinco décadas de carreira, um outro espetáculo se chamava Abraçar e agradecer. O título apenas dava nome a gestos que vinham de longe, e que se renovam agora, após uma década: parte inalienável da grandeza dessa artista vem de sua permanente gratidão, como se a cada passo renovasse suas promessas de fidelidade. Porque na base de tudo está o dom, Bethânia agradece primeiramente à graça de ter uma voz, de ser uma voz.
Assim, a próxima sequência será de agradecimento e homenagem – a outras vozes, ou, precisamente, a vozes femininas. Lembremos que desde o início está em cena o feminino: na exaltação às ayabás, no louvor à figura de “Yemanjá”; em imagens afirmativas como “eu gosto de ser mulher”; nas presenças de Sueli Costa, Maysa, Ângela Ro Ro, Clarice Lispector.
E, agora, na presentificação de Nana Caymmi:
“Ela canta. / Pode-se ouvir. / Pode-se ver: a voz vem do mar.”
Com Nana, vem Brasileirinho (2003), um cheirinho, só. Sueli Costa, Gal, Rita Lee, Nana Caymmi, Angela Ro Ro – haviam partido há tão pouco tempo. Bethânia se pergunta diante do mistério:
“Onde estarão suas vozes?”
A sequência se conclui com uma surpresa:
“Rita Lee deixou uma letra/poema com um pedido: que eu a cantasse. Entregou à minha voz seus pensamentos, reflexões e lucidez. Pediu que o Roberto, seu amor e parceiro, musicasse. Comovida, realizo o desejo dessa artista imensa.”
São as mulheres que trazem o verbo. E todas elas são a mesma mulher que carrega a lata na cabeça (“A força que nunca seca”).
“As mulheres têm uma roseira espalhada no ventre”, ouviamos lá atrás.
Abre-se, então, a “Rosa dos Ventos” – ela, sempre ela!
E é também, e sempre, o Brasil, agora em seu destino trágico. Grandeza e desastre. A natureza retornando em pesadelo às forças descontroladas do caos na forma de uma enchente amazônica: a queda do céu.
Mas o pesadelo de A Rosa dos Ventos revela-se renascimento quando “Vera Cruz” levanta-se do chão e o palco se enche de coragem e galhardia. O Brasil ressurge da própria explosão, capaz de dissolver as contradições pelo amálgama amoroso das diferenças: “nação hermafrodita”. “Carcará” passa voando, veloz na voz, e vai-se por ora.
Eis a festa. Mas a noite está perfeita, queremos mais: “A menina dos olhos de Oyá” e “Reconvexo”.
BookmarkFelizes, guardamos o disco para voltar a ele.
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