Bets avançam nas favelas e fazem mulheres pagarem a conta
Mulheres que vivem nas favelas do Território do Bem, em Vitória, estão entre as principais vítimas dos impactos sociais e financeiros das apostas online. Uma pesquisa de campo realizada entre 2023 e 2026 pelo antropólogo David Nemer identificou que elas sofrem tanto com as próprias perdas quanto com o uso indevido de sua renda por companheiros, situação que pode terminar em endividamento, violência patrimonial e agressões físicas.
O estudo acompanhou moradores de Bairro da Penha, Gurigica, Itararé e São Benedito, na região centro-oeste da capital do Espírito Santo. Embora os homens apareçam como maioria entre os apostadores, sobretudo nas plataformas esportivas, as mulheres também participam de jogos de cassino apresentados de maneira lúdica, como o chamado “tigrinho”.
A desigualdade fica mais evidente dentro das famílias, muitas delas sustentadas por mulheres. Quando um homem consegue algum retorno, costuma gastar o valor consigo mesmo, mas as dívidas deixadas pelas derrotas recaem sobre mães e companheiras, responsáveis por manter alimentação, aluguel e demais despesas domésticas.
Em um dos casos encontrados, um jovem retirou R$ 20 mil do cartão da mãe e recuperou apenas R$ 7 mil. Ele exibiu roupas e tênis comprados com o saque, enquanto a família ficou encarregada de cobrir um prejuízo de R$ 13 mil.
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Os relatos também indicam que discussões pelo dinheiro desviado podem avançar para violência física. Muitas vítimas não procuram a polícia por vergonha, medo ou falta de tempo, já que enfrentam longas jornadas de trabalho e acumulam os cuidados com filhos e a casa.
A pesquisa aponta ainda consequências como redução do consumo nos pequenos comércios e dívidas com o tráfico. Em comunidades majoritariamente negras e pobres, a falta de uma rede financeira de apoio torna a recuperação ainda mais difícil.
O acesso imediato pelo celular, o Pix e a aparência de jogo inocente ajudam a espalhar as apostas. Serviços de saúde, centros comunitários e igrejas oferecem acolhimento, mas atuam principalmente sobre os danos de uma atividade já incorporada ao cotidiano das comunidades.
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