Daniella Marques quer fechar única indústria de semicondutores da América do Sul
Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) e ex-presidente da Caixa Econômica Federal, apontou a estatal como uma das empresas que poderiam ser extintas em um eventual governo do senador. A crítica ignora, porém, a importância estratégica de manter no país infraestrutura industrial, conhecimento técnico e capacidade de desenvolver semicondutores, componentes essenciais para praticamente toda a economia digital.
O apelido “chip do boi” faz referência aos dispositivos de identificação por radiofrequência (RFID) desenvolvidos para rastrear o gado e auxiliar no controle sanitário e na gestão dos rebanhos. A tecnologia é real e tem aplicações importantes para a pecuária brasileira, mas representa apenas uma das possibilidades de atuação da empresa. A CEITEC desenvolve circuitos integrados e dispositivos eletrônicos para diferentes finalidades, incluindo identificação de produtos e veículos. Tratar a estatal como se existisse exclusivamente para fabricar identificadores de animais reduz uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento a um único produto.
A CEITEC abriga a única fábrica de wafers com capacidade produtiva na América do Sul, segundo representantes da empresa ouvidos pelo Olhar Digital em abril de 2026. Wafers são lâminas de material semicondutor sobre as quais os circuitos eletrônicos são construídos. A ressalva é importante: embora o Brasil disponha dessa infraestrutura, o país ainda enfrenta dificuldades para transformar a capacidade instalada em fabricação comercial de semicondutores em escala.
Investimento público para sair da dependência tecnológica
Em 2024, a CEITEC recebeu R$ 220 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) para modernizar sua infraestrutura e viabilizar a fabricação de semicondutores de potência à base de carbeto de silício (SiC). Esses componentes são utilizados na conversão e no controle de energia elétrica, com aplicações em veículos elétricos, inversores de energia solar, equipamentos industriais e outros sistemas que exigem eficiência energética.
A iniciativa representa uma tentativa de inserir o país em segmentos de maior valor agregado, nos quais o domínio tecnológico pode gerar empregos especializados, estimular a pesquisa científica e abrir espaço para novas empresas fornecedoras. Em vez de depender exclusivamente da compra de componentes estrangeiros, o Brasil pode desenvolver conhecimento, formar profissionais e criar condições para atrair investimentos privados em torno de uma estrutura industrial já existente.
A discussão ultrapassa a situação financeira de uma única empresa. A CEITEC registrou faturamento bruto de R$ 7,5 milhões em 2025, recebeu R$ 68,8 milhões em recursos do Tesouro Nacional e fechou o ano com prejuízo de R$ 17,3 milhões, segundo dados divulgados pela imprensa a partir dos balanços das estatais. Os números mostram que a empresa ainda depende de financiamento público e precisa demonstrar resultados. Entretanto, avaliar uma infraestrutura tecnológica exclusivamente pelo lucro imediato significa desconsiderar parte dos benefícios que esse tipo de investimento pode gerar ao longo de décadas, como formação de mão de obra, desenvolvimento de patentes, atração de indústrias e redução da dependência externa.
China e Estados Unidos investem bilhões para dominar tecnologias
As principais potências econômicas não tratam os semicondutores como uma atividade que deva depender exclusivamente da rentabilidade imediata das empresas. China e Estados Unidos utilizam políticas industriais, financiamento público, incentivos à pesquisa e apoio à instalação de fábricas para fortalecer suas cadeias produtivas e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
Nos Estados Unidos, o CHIPS and Science Act autorizou US$ 39 bilhões em incentivos diretos para construir, expandir e modernizar instalações de fabricação de semicondutores, além de recursos para pesquisa, desenvolvimento e formação profissional. Na China, planos industriais como o Made in China 2025 orientam investimentos estatais para desenvolver capacidades tecnológicas nacionais e ampliar a participação do país em setores de alto valor agregado.
Exportar minério e importar tecnologia mantém o Brasil em posição desfavorável
O debate sobre a CEITEC também se conecta a uma contradição histórica da economia brasileira: o país possui recursos minerais estratégicos, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar parte significativa dessa riqueza em produtos industrializados de maior valor agregado.
O Brasil tem potencial geológico em minerais críticos, incluindo terras raras, utilizados em diferentes cadeias tecnológicas. Entretanto, a extração é apenas uma etapa do processo. Refino, processamento químico, desenvolvimento de materiais, fabricação de componentes e montagem de produtos finais são etapas que podem concentrar uma parcela muito maior do valor econômico e do conhecimento industrial.
Dados da Agência Nacional de Mineração mostram a concentração internacional dessas cadeias: a China responde por aproximadamente 85% a 90% do refino mundial de terras raras e domina grande parte da fabricação de ímãs permanentes utilizados em motores, equipamentos industriais e tecnologias energéticas. No Brasil, há oportunidades de ampliar o processamento de minerais e a produção de materiais e componentes de maior valor agregado, reduzindo a dependência da importação de produtos industrializados.
É importante diferenciar as cadeias: as terras raras não são a matéria-prima básica de todos os semicondutores, e o projeto da CEITEC para chips de potência utiliza carbeto de silício. A relação entre esses temas está na estratégia industrial mais ampla. Minerais, materiais avançados, semicondutores, baterias, motores elétricos e equipamentos de energia integram cadeias de tecnologia nas quais o domínio das etapas de processamento e fabricação define quem captura maior parcela da riqueza produzida.
Soberania tecnológica exige planejamento de décadas
Para um país em desenvolvimento, construir capacidade em setores tecnológicos não é apenas uma escolha comercial: também envolve autonomia econômica e poder de negociação internacional. Um país que depende integralmente de fornecedores externos fica mais vulnerável a interrupções de abastecimento, mudanças de preços, restrições comerciais e disputas geopolíticas. A pandemia de Covid-19 e as tensões internacionais em torno dos semicondutores demonstraram como a concentração produtiva pode afetar cadeias inteiras da economia.
Manter a CEITEC não garante, por si só, a independência tecnológica brasileira. A empresa precisa superar dificuldades históricas e demonstrar que consegue transformar investimentos públicos em produção, inovação e oportunidades econômicas. Mas extinguir a estrutura também não resolveria a dependência externa: significaria abrir mão de uma das bases industriais disponíveis no país para tentar ingressar nesse mercado.
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