“Mais”: o álbum que transformou Marisa Monte em referência para toda uma geração
Quando “Mais” chegou às lojas, em março de 1991, Marisa Monte já era uma das cantoras mais comentadas do Brasil, mas ainda precisava mostrar o que faria depois do impacto provocado pela sua estreia. Gravado entre o Rio de Janeiro e Nova York, o segundo álbum apresentou uma artista disposta a construir uma linguagem própria, decisão que mudou os rumos de sua carreira e deixou marcas profundas na música popular brasileira.
O desafio não era pequeno, pois o primeiro disco havia transformado Marisa em fenômeno antes mesmo que o público conhecesse com clareza suas ambições artísticas. Lançado em janeiro de 1989, período pouco valorizado pelas gravadoras, “MM” contrariou as práticas do mercado ao apresentar uma cantora estreante por meio de um registro predominantemente ao vivo, baseado em um repertório diversificado e interpretações de forte presença cênica.
A estratégia foi preparada desde os primeiros espetáculos dirigidos por Nelson Motta, quando jornais e revistas tentavam compreender quem era a jovem carioca capaz de aproximar samba, rock, soul, música nordestina e clássicos da canção brasileira de modo tão uniforme, como se as canções tivessem elos entre si.

Marisa havia chamado atenção em 1987, no Rio, e chegou ao disco cercada por uma campanha de divulgação que alimentava a curiosidade do público sem revelar completamente a artista.
O sucesso de “Bem que se quis”, incluída na novela “O Salvador da Pátria”, levou sua voz a um público muito maior e impulsionou as vendas do álbum. Ao mesmo tempo, a projeção criou uma categoria vaga na imprensa cultural, a das chamadas cantoras ecléticas, expressão utilizada para reunir artistas distintas como Cássia Eller, Adriana Calcanhotto, Zélia Duncan e Itamara Koorax sob a influência da novidade representada por Marisa.
A decisão de mudar no auge

Repetir o formato seria o caminho mais previsível, especialmente diante de uma indústria acostumada a prolongar fórmulas bem-sucedidas até o esgotamento. Marisa preferiu mudar enquanto ainda estava no auge da primeira fase e entrou em estúdio para construir “Mais”, um trabalho que preservava a amplitude musical da estreia, mas deslocava a narrativa para suas escolhas como autora e articuladora de encontros.
A produção ficou sob responsabilidade de Arto Lindsay, músico norte-americano cuja trajetória estava ligada à experimentação, ao pós-punk e à música brasileira. Em lugar de revestir o repertório com a sonoridade uniforme do primeiro álbum de Marisa, Lindsay ajudou a organizar contrastes e a combinar instrumentos acústicos, recursos eletrônicos, batuques, guitarras e arranjos sofisticados sem retirar das canções a simplicidade necessária para ocupar a programação das rádios.
A ficha técnica demonstrava a ambição do projeto ao reunir artistas de formações e origens muito diferentes. Ryuichi Sakamoto participou com teclados, John Zorn acrescentou seu saxofone experimental, Melvin Gibbs assumiu o baixo em várias faixas e nomes como Naná Vasconcelos, Marc Ribot, Robertinho do Recife, Bernie Worrell e as Pastoras da Velha Guarda da Portela ampliaram a variedade sonora.
Essa combinação poderia ter resultado em um disco excessivamente carregado, mas “Mais” encontrou equilíbrio entre a pesquisa e a comunicação popular. O álbum tinha estrutura moderna para o início dos anos 1990 e respondia a uma mudança de época, quando o ciclo de maior exposição do rock brasileiro dos anos 1980 perdia força e o mercado buscava uma música adulta, orgânica e adequada à expansão do formato digital, em voga com a popularização do compact disc, uma novidade na época.
A abertura com “Beija Eu” deixava claro que Marisa não pretendia ocupar apenas o lugar de grande intérprete. Criada com Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, a faixa condensava sensualidade e um forte apelo pop, tornando-se o primeiro grande sucesso radiofônico do álbum e uma das músicas mais reconhecidas de toda a trajetória da cantora.
Parcerias revelaram a compositora

A aproximação com integrantes dos Titãs foi decisiva para a formação dessa nova identidade. Arnaldo Antunes também apareceu no repertório com “Volte para o seu lar”, canção de forte demarcação ideológica construída sobre uma base percussiva contemporânea, além de dividir com Branco Mello a autoria de “Eu não sou da sua rua”, interpretada por Marisa com delicadeza e menor carga dramática.
Nando Reis teve presença ainda mais ampla e assinou quatro das 12 faixas, três delas em parceria com Marisa. O encontro revelou afinidades que atravessariam diferentes momentos das carreiras dos dois artistas, enquanto o disco ajudava a definir a turma criativa com a qual a cantora desejava trabalhar naquele período.
Entre essas composições, “Ainda lembro” ganhou destaque pela melodia e pelo acento soul reforçado pela participação de Ed Motta. O dueto retomava uma colaboração já experimentada no espetáculo que originou o primeiro álbum, quando os dois haviam dividido interpretações de músicas de Marvin Gaye e Tim Maia.
“Diariamente”, escrita apenas por Nando Reis, tornou-se outra peça duradoura do repertório e conquistou um espaço que ultrapassou a divulgação original do disco. Com uma letra formada pela associação de imagens cotidianas, a música encontrou no canto preciso de Marisa um tom leve, próximo e facilmente reconhecível por diferentes gerações.
As demais parcerias com Nando, “Tudo pela metade” e “Mustaphá”, foram posicionadas no encerramento do álbum e tiveram menor projeção comercial. Ainda assim, ajudaram a registrar uma artista em processo de descoberta, interessada não apenas em produzir sucessos, mas em testar possibilidades de escrita e caminhos menos evidentes dentro do próprio repertório.
Marisa também assinou sozinha “Eu sei (Na mira)”, composição que confirmou seu domínio da linguagem pop. Escolhida como faixa de trabalho e incorporada à trilha da novela “O Dono do Mundo”, a música mostrou que sua transição para a autoria não dependia exclusivamente da segurança oferecida pelos parceiros.
Das 12 faixas, cinco traziam a assinatura de Marisa, isoladamente ou em colaboração, uma mudança importante para quem havia estreado principalmente como intérprete. Na época, parte da crítica demonstrou resistência e comparou seus esforços iniciais como compositora à técnica apresentada pela cantora em seu álbum de estreia, sem perceber que aquela experiência estava criando as bases de um universo autoral que se tornaria mais nítido nos trabalhos seguintes.
Tradição brasileira ganhou nova roupagem

Apesar da guinada, “Mais” não abandonou o trabalho de pesquisa que havia caracterizado “MM”. A diferença estava na maneira como as releituras passaram a conviver com as inéditas, deixando de funcionar como principal cartão de visitas para integrar um projeto no qual passado e presente se entrelaçavam mutuamente.
“Rosa”, de Pixinguinha e Otávio de Souza, recebeu tratamento que preservou a solenidade da valsa e acrescentou a modernidade dos teclados de Sakamoto. A gravação demonstrou a habilidade de Marisa para atualizar uma obra clássica sem apagar suas origens, competência que se tornaria uma das marcas mais consistentes de sua discografia.
Em “De noite na cama”, composição de Caetano Veloso lançada por Erasmo Carlos duas décadas antes, a cantora recuperou uma música considerada um tanto obscura na obra dos dois artistas. Já “Borboleta”, proveniente do folclore nordestino, reforçou seu interesse por tradições transmitidas fora dos circuitos convencionais da indústria fonográfica.
A experiência mais ousada ocorreu em “Ensaboa”, lundu de Cartola transformado em uma montagem de referências musicais e sociais. A faixa incorporou elementos ligados a “Lamento da lavadeira”, “Marinheiro só”, “A felicidade” e obras de Fela Kuti, além de ecos da música de Gerônimo Santana, aproximando o cotidiano das lavadeiras, a herança afro-brasileira e críticas ao colonialismo.
Essa arquitetura explica por que o ecletismo de Marisa não se resumia apenas a colocar gêneros diferentes lado a lado. Em “Mais”, a mistura de vários gêneros musicais proporcionou uma divisão natural, sem a obrigação de estabelecer uma sonoridade dominante.
O álbum também alterou a relação da cantora com o grande público ao produzir sucessos capazes de alcançar rádio, televisão e, naquele período, a MTV. “Beija Eu”, “Ainda lembro”, “Diariamente”, “Eu sei” e “De noite na cama” se tornaram hits imediatos, enquanto as faixas mais experimentais preservavam a inquietação artística de Marisa.
Um legado renovado nos palcos

A repercussão comercial confirmou que a mudança não havia afastado os ouvintes conquistados pelo primeiro disco. Pelo contrário, “Mais” levou novamente Marisa às listas dos álbuns mais vendidos, vendendo mais de 710 mil cópias e fortalecendo sua imagem como uma artista de longo prazo, preparando o terreno para “Verde, anil, amarelo, cor-de-rosa e carvão”, lançado em 1994.
Foi nesse trabalho posterior que Carlinhos Brown apareceu como parceiro, completando uma aproximação que anos depois daria origem aos Tribalistas, ao lado de Arnaldo Antunes. Visto em retrospecto, “Mais” contém o início de uma rede criativa que acompanharia Marisa durante décadas.
A permanência dessas canções nos palcos ajuda a medir o alcance da obra. Na turnê “Phonica”, iniciada em Belo Horizonte em outubro de 2025, Marisa voltou a percorrer diferentes períodos da carreira acompanhada por uma orquestra de 55 músicos, sob regência de André Bachur, além de uma banda formada por Dadi Carvalho, Pupillo, Alberto Continentino e Pedrinho da Serrinha.
Os arranjos orquestrais surgiram como uma outra maneira de revisitar suas músicas mais conhecidas e evidenciar a importância do seu cancioneiro. O espetáculo reafirmou um método já perceptível em “Mais”: o protagonismo da canção, enquanto a técnica da cantora trabalha a serviço da emoção.
Mais de três décadas depois, o segundo álbum continua relevante porque, ao invés de proteger a imagem que a havia consagrado, Marisa Monte aceitou o risco de trocar a segurança da intérprete celebrada pela exposição de uma compositora ainda em formação.
“Mais” inaugurou uma concepção de música brasileira capaz de conversar com o mundo, inaugurando a assinatura artística que permitiu a Marisa Monte construir sua identidade sem depender de modismos ou sobreviver apenas da nostalgia.
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