Skip to content Skip to footer

Renato Freitas: o negro, pobre, favelado que enfrentou e venceu os coronéis do Paraná

Na tarde de 9 de outubro de 2023, quando o deputado estadual Renato Freitas (PT) acusou publicamente o então presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Ademar Traiano (PSD), de corrupção, muita gente apostava que ele selava ali o caminho para ter o mandato cassado e ser banido da vida pública. Afinal, Freitas – um parlamentar negro, vindo de uma área de ocupação irregular, filho de uma imigrante nordestina e pai presidiário – estava desafiando um dos políticos mais poderosos de um dos estados mais conservadores do País. E apesar das muitas suspeitas de bastidores, naquele momento não havia nenhuma comprovação concreta da acusação que o petista fazia.

Às vésperas da votação de sua cassação no Conselho de Ética da Assembleia, porém, o ex-favelado incluiu, em sua defesa, documentos explosivos que mostravam que Traiano e outro ex-deputado de direita haviam fechado um Acordo de Não-Persecução Penal com o Ministério Público do Paraná confessando terem recebido propina de uma empresa que operava a TV do Legislativo. De ameaçado de cassação, Freitas acabou sendo o algoz do político, que depois de cinco mandatos no comando da Assembleia paranaense, foi obrigado a se recolher à presidência da Comissão de Constituição e Justiça da Casa, engolindo em seco a vitória do adversário “insolente”.

Freitas já havia dado demonstração de resiliência em 2022, quando teve o mandato de vereador cassado por entrar em uma igreja construída por e para pretos, em uma manifestação contra o assassinato do imigrante congolês Moïse Kabagambe no Rio de Janeiro. Cassação essa que foi revertida pelo STF e se tornou a base para que ele fosse eleito deputado estadual no mesmo ano, com votação ainda maior do que na eleição anterior.

Atualmente, o parlamentar enfrenta mais um processo de cassação, dessa vez por ter entrado em confronto com um “pitboy” no Centro da Capital paranaense, ao defender sua companheira grávida. Ação que ele enfrenta com a tranquilidade de quem sobreviveu a uma infância e juventude a que muitos de seus amigos sucumbiram, incluindo um irmão que foi assassinado quando a empresa onde trabalhava foi alvo de um assalto. Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Renato Freitas conta um pouco dessa trajetória improvável, mas exemplar de alguém que conseguiu vencer diante de adversidades que fariam a maioria nem tentar. Pré-candidato a deputado federal, ele é cotado como um dos potenciais mais votados na eleição para a Câmara e se credencia desde já a se consolidar como uma das novas lideranças de esquerda mais promissoras e desafiadoras do status quo político do País.

BFC: as raízes e a infância

Renato Freitas: eu achava que eu tinha vindo para cá (Curitiba) com uns 12, 13 dias. Só que a fita foi o seguinte: nós não veio porque a gente queria ou tava planejando. Primeiro que minha mãe atravessou um deserto. Minha mãe já vem lá do do sertão. São José de Princesa, sertão entre Paraíba e Pernambuco. Lá ao lado do Quilombo do Livramento. Perto de Serra Talhada, mais para frente. E o meu avô era uma pessoa que criava bodes. Matava, estripava, desossava, vendia. Casa de chão batido. Muito amargor da vida. Tem gente que vira bicho. Eu acho que, de alguma forma, o meu avô era um bicho, porque ele tratava muito mal todos os filhos. Espancava a esposa, de arrastar pelo cabelo. De achar que as pessoas eram objetos que ele poderia querer. Se ele não tinha nada, nenhum real no bolso, uma coisa que ele tinha era que ele era dono das pessoas ao entorno. Então agredia muito, violentava muito.

E esse meu avô era muito mau. E em pouco tempo, ele começou também a matar pessoas. Muito comum lá naquelas bandas, terra de coronel, que pega cachorro faminto, raivoso, para latir para ele. E minha mãe foi visita de cadeia no presídio do Roger, em João Pessoa (Presídio Desembargador Flósculo da Nóbrega, conhecido como Presídio do Roger, localizado no bairro do Baixo Roger em João Pessoa, Paraíba). Eu estive lá, fui ver. Até hoje, quebrada, periferia, favela, imagino na época. As (casas de) palafitas de madeira, de 20, 15 metros quadrados. Patente (vaso sanitário) para fora. As crianças descalças, os olhos amarelados, barriga d’água, filho, cena triste de se ver, não é bonito não, não é legal. Ser humano sofrendo não é legal, não é bonito. E minha mãe foi tentar a vida em São Paulo. Ela fugiu de casa com 9, 10 anos desse meu avô. Porque ela tentou ir na escola, ele falava que mulher (não precisava estudar). Daí quando ele foi preso, a minha mãe se matriculou e matriculou o irmão dela, meu tio, que nasceu com uma certa deficiência nos pés. Uma má formação. E ele também não deixava, não queria deixar estudar. Quando ele foi preso, minha mãe já tinha, sei lá, uns 9 anos, foi bem na época que ela fugiu. E ela se matriculou e levou ele junto. Logo que ele saiu, ou pouco depois que ele tinha saído da cadeia, acho que era um duplo homicídio. Ele voltou e espancou, bateu nela, nele, na minha avó. Minha vó negra, indígena, afro-indígena foi sequestrada. Foi abusada desde o primeiro dia até o último segundo. Infelizmente. Perguntei para ela quando estive lá. Ele já tinha morrido. Eu estive lá depois de velho. “Vó…” Primeira vez que eu vi ela, ou segunda, na verdade, teve uma vez que eu vi ele, mas eu era pequeno. “Vó, como que ele era para a senhora?” “Ele era brabo para eu.” Daí eu falei: “Mas vó, como que era a vez que ele batia na vó?” “Batia bastante nela.” “E qual foi a vez que… que a senhora lembra assim, que a senhora pensa que toca às vezes a memória, o coração da senhora assim de vez em quando?” “Ah, a vez que eu estava grávida de não sei quem, que ele falou para eu comprar farinha e eu falei que estava com tontura e ele bateu, arrastou até a rua, vizinho teve que…” Ele ia matar a pessoa, então você já entende o contexto, mano. Coisas que são fruto desse Brasilzão cabuloso. Minha mãe cedo já esteve lá em São Paulo e passou a sofrer. Dona Raimunda, afro-descendente, na selva de pedra. Se Deus quis assim, alguns têm que atravessar deserto. Eu acho que isso herdei da minha mãe. Ela atravessou o dela e eu continuei.

Em São Paulo minha mãe conheceu meu pai, ficou grávida do meu pai. Ela estava na rua. Foi acolhida e começou ali um relacionamento que também só foi abusivo. Só violência. O meu pai foi foi preso num determinado momento e veio para cá. E eu vim com dias para cá porque ele veio para o complexo penitenciário. Chegando no complexo, nós, no começo ia fazer visita. Eu já fui morar na Vila Macedo. Primeiro foi em Itambé ali, no Guarituba, mas depois fui para a Vila Macedo, em Piraquara (região metropolitana de Curitiba). Ele saiu do Ahú (antigo presídio de Curitiba fechado em 2006) e foi para o complexo (Penitenciário de Piraquara),. E depois colônia (penal). A gente era visita. Minha mãe foi visita de novo na vida dela. Por isso que eu digo do deserto que ela atravessou. Eu comecei a atravessar esse deserto também. Fui visita, meu irmão também.

BFC: a vida na Vila Macedo

Renato Freitas: Na Vila Macedo, para as crianças era boa também. Tinha muito mato, pegava bambu, fazia pipa. Vejo hoje que a molecada não faz nem pipa, mano. Eu fazia muita pipa. Eu já olhava as arvorezinhas, já via a forquilha assim, dava um jeito, quebrava, arrancava, fazia uns estilingues monstro. Via onde que estava o rio, qual que era a direção, já se envolvia. Me diverti muito. Aprendi a nadar em riozinho. Só que o seguinte, ali não tinha uma creche. Só tinha, mal e mal, escola municipal, quando você entrava na primeira série, depois que já tivesse uns 6, 7 anos. E humilde, simples também, de madeira, assoalho, nem todo dia tinha lanche. Se tiver lanche, é um suco e três bolachas e já era. Infância é esse primeiro momento, acho que de 1 a 6 (anos). Você está vendo o mundo pela primeira vez. Tudo ali tem muito valor. E o mundo que eu vi ali foi um mundo que não tinha creche. Que minha mãe saía antes do sol nascer e voltava depois do sol se pôr. E meu irmão tinha 7, eu tinha 6… Era para ficar comigo. Ele ia para um lado, eu ia para o outro, para a rua. Minha irmã, um tempo, ficou numa vizinha.

Ali naquela situação, na Vila Macedo, pela rua, os valetão, as ruas de terra, invasão. Meia-água de madeira, todo mundo amontoado, sem sofá, sem geladeira, sem rádio, sem TV. “Ah, esse cara é vitimista” Não, mano, não estou pagando, não quero contar história triste. Mas também não vou negar minha história se ela teve momentos de dificuldade só porque você quer me taxar e me rotular. Perseguido eu já nasci, eu digo para quem está ouvindo, para quem está vendo, porque o julgamento nessa cidade aqui é forte desde criança. E a gente teve ali, sobreviver, e nessa de sobreviver, tive que superar predadores.

Eu nasci e já fui me fazendo e me vendo. Porque a minha família é miscigenada, então a minha irmã é bem branquinha, digamos assim. Eu já sou, negro, afrodescendente, preto. Com muito orgulho. A primeira coisa foi me ver como negro e ver ela como branca. A partir do momento que as diferenças estão tão próximas, dentro da tua casa, você já acha diferente. Mas também já convive. Você está vendo, você é diferente, não vai adiantar você negar. E desde cedo também eu já me identifiquei com a nossa cultura. Eu já fiz capoeira quando era criança. Depois nunca mais fiz. Mas quando eu era visita lá na colônia penal, um pouco depois até de eu ter sido visita, mas eu já conhecia o lugar, já ia lá na colônia com o Mané, um homem negro que me resgatava da minha casa. Que às vezes era discriminado até na minha casa com meu padrasto. Ele falava assim: “Você é negro”. “Corta esse cabelo!” E nunca deixou meu cabelo crescer, entendeu. Para mim, um grito bem alto. A criança que não pôde e o jovem que acabou sendo careca por opção. Você olhar minhas fotos vai ver tudo máquina zero, a vida toda.

BFC: a importância do rap

Meu irmão trabalhador, que estava trabalhando e foi morto num assalto. Meu pai não tive convívio. Mas olha que história louca. Parece que o dia que ele morreu foi o dia que ele foi lá em casa. Lembro até hoje, na Perdizes, em Piraquara. Do lado Perdizes ali, tinha uns 14, 15 anos. 1999, o ano do Rap nacional. RZO “Todos São Manos”, Rapping’ Hood “Sou de Ghetto”, 509-E, Trilha Sonora do Gueto, Facção Central… “A Caminho da Humanidade”, Facção Central “País do Crime”, “Seja como For”, do X… poderia te falar milhares. Ndee Naldinho… “Dê Menos Crime”… Vários grupos, infinitos lançaram seus grandes discos nesse ano. E eu tive a satisfação de não ter pai e esse ser o pai que eu não tive: o Rap nacional. Sou grato à minha sobrevivência também às ideias do Rap nacional, que me deu orgulho desde cedo. Me deu direção. Me falou como faz para enfrentar e sobreviver nessa guerra sem se deixar ser marionete do sistema. Meu pai apareceu lá em 99. Eu nunca tinha meio que visto ele. Vi ele poucas vezes. Ele mesmo quando saiu (da prisão). Ele tinha outra família. Pelo visto, ele estava com a outra família lá. Ele nunca teve essa curiosidade.

Eu também fui uma criança feliz. Eu jogava xadrez nessa época, por exemplo. 15 anos. Um mundão daquele jeito, encontrei meu refúgio ali, no meu xadrez, quem diria. Eu, que já era um moleque infrator desde os 11, 12. Primeiro X-Salada que eu comi foi no centro com o Paulinho. Comi o X-Salada, não bebi a Fanta Uva porque ele falou para não abrir a latinha, não beber porque senão ia dar revertério. Comemos um, dois, três, é isso mesmo, cavalo louco. Ganhamos as ruas do centro. Olhava os sorvetes nas banquinhas, pegava assim um, já colocava na manga, pegava outro. “Quanto que é esse sorvete?” “É tanto.” “Ah, está aqui, vou… Ah, está bom, obrigado.” Guardava na ficha deles. Saía, nem via. 10, 11 anos de idade. Já cuidava de carro no centro. Eu tenho presença nessas ruas aqui, nós é crescido nessas ruas aqui.

Minha mãe sempre gostou de um Bezerra da Silva, várias coisas da hora. Um Raul Seixas. Minha mãe alternativa. Minha mãe é contestadora. Ela é sofredora, não tem como não contestar. Ela viu tudo e estava lá limpando o chão dos boy e o rap foi meu. Nesse dia vi meu pai. Ele foi lá de bicicletinha. Chamou, minha mãe atendeu. E daí ele trocou meia dúzia de palavras. Olhei pelo vitrô assim só, só pela cortina. Era uma casa de madeira. A cerquinha ali, pá. Olhei e já meio que desconfiei que era ele mesmo. Ele deu um alô, acenou, qualquer coisa e só pá. Minha mãe entrou: “É teu pai.” “Dá… legal, da hora.” Depois de velho, eu parei um dia e falei para minha mãe, depois que eu já até virei vereador: “Ô mãe, tipo, meu pai foi lá e nem me chamou, nem pediu para… né?” E daí ela falou: “Não…” Minha mãe nunca falou mal dele, nem bem nem mal. Simplesmente não existiu para nós. Nunca deu um real. Não tive pai no sorteio. No mesmo dia parece que mataram ele na quebrada dele. Não sei qual fita, mano. Não tenho nenhum rancor. Jamais. Mas também não tive pai, não vou mentir.

Foi da hora que o Rap só traduziu. Ele não veio da cabeça. Não, não foi nem pensar e nem ouvir. O segredo do que está dito só pode ser o que não está dito. E o que não está dito está vivido. Porque a palavra tem matéria e tem espírito. A palavra não sai saindo, automática, como se estivesse lendo um script. A palavra só flui. Ela é carne vivido. Eu vivi. Essa que é a fita.

BFC: a filiação ao PSOL

Renato Freitas: O (ensino) fundamental fiz no Colégio Hermínio de Azevedo Costa, só para contar o arco inteiro. Que era de madeira, mal tinha lanche. Eu mesmo ficava embaixo do assoalho com outras crianças: porque brigou, porque pegou uma bolacha. Os moleque era zica mesmo. Um lugar sem estrutura alguma para ser uma escol. Sem o mínimo. Sem uma gangorra, um balanço, um benefício qualquer. Só para os pais estarem trabalhando mesmo. Depois disso abandonei o colégio na quinta série. Fui fazer ensino fundamental no CEEBJA (Centro de Educação para Jovens e Adultos). Fiz o ensino médio no Colégio João Paulo. Dois anos e meio porque fui expulso no terceiro ano e fui para o (colégio) Leôncio Correia. Reprovei, fiz um recurso, reprovei, fiz outro recurso, passei. Eu só dormia na sala no ensino médio. Eu era pacoteiro do (supermercado) Pão de Açúcar. Entrava às duas, saía às 10:15, 10:30, mas até chegar em casa, fazer uma extra, um trampo a mais. E para chegar, acordar seis e pouco para estar 7:30. Daí os caras já não gosta de você, já tem um grupinho lá dos moleque que faz suástica. Você já não gosta, reclama, vai intimar. Os caras também intima e não gosta e eles existem, eles estão ali na tua frente, filho, e agora? Vai blefar? É tudo com você, você e eles. E agora? Agora vai ter que ser, filho. Então toma, toma e toma. Ufa! Ah, daí veio o “Minha Galera”. Já estava em Curitiba. Já morava ali na região norte. Salve tudo para todos os moleques ali, ó: GNB, Abaité, Cassiopeia, Tinguí, ali, Colombo, Vila Esperança, tá ligado? Ali, Tamandaré, Guarituba, Cachoeira, Alonice, quebradinha. Aí Pinhais, Jardim Cláudia, aí rapaziada, Perdizes… Aí Vila Zumbi, Vila Liberdade, ó… estamos juntão. Já estive lá, já dei aula de xadrez lá na Vila Zumbi. Quando aprendi a jogar xadrez não ficou só comigo, eu fui lá na APOIO, que é uma ONG na Vila Zumbi do lado da (rodovia BR)116, e dei aula lá também. As criancinha gostaram.

É importante compartilhar, se fortalecer em comunidade. Eu fui sempre de comunidade. E ali quando eu estava estudando, eu era mais um de comunidade. E de repente eu estava em Curitiba, rua de terra, zona norte, Boa Vista. Os cara até nazista, filho. Fui lá e já liguei meus outros parceiros, meu irmão Cléber, por exemplo, preto, pobre, filho de empregada doméstica, sem o pai na identidade também, lá das ruas de terra lá de cima lá da GNB. É isso mesmo, é o berço, ele mesmo, meu parceiro. Sobrevivemos juntos, vários caminhos. Vários morreram, vários estão presos, vários estão na droga. Infelizmente essa é a realidade. Isso não se nega. Agora também não se nega que tem sofredor de valor. Nossos parceiros sofredor de valor. Tá ligado? E já pá, comprei o oitão e falei: “Demorou, filho, o que quiser tá tendo.” Só que o que não vai acontecer é nós apanhar na rua só porque vocês não gosta de nós, filho. Nós vem do campo de extermínio, matar e morrer, aí é só um detalhe, irmão, infelizmente. Infelizmente os números que fazem o Brasil o país mais violento do mundo não são uma mágica, não são recurso retórico, não são uma estatística, não é uma curiosidade. É mães em luto, entendeu? Minha mãe tá em luto, entendeu? Até onde eu conheço, todas as mães estão em luto. Olha Londrina, olha as mães do “Nenhuma Vida a Menos”. “Nenhuma Alma a Menos”, “Justiça Por Almas”. Vários movimentos de mães em luto.

Eu atravessei isso daí e me formei, mano, porque no ano que eu entrei no curso de Direito foi o ano de 2007 que fiz o vestibular e meu irmão morreu em abril. Eu atravessei esse deserto. Cheio de ódio. Meu irmão era trabalhador, eu sempre tive mais na rua. Nós era irmão do mesmo pai, o pai que nós não teve, só que o pai dele era outro. Meu irmão também era um pouco diferente assim. Mas ao mesmo tempo igual, nós era dupla, né? Complementava. Nós se matava, dava paulada na cabeça um do outro, pedrada, chute, o bagulho era louco, várias cicatrizes que eu tenho, que ele tem também, o bagulho era louco. Nossa mãe catava nós também, fio do ferro, cabo de vassoura. Ela sofreu violência de verdade, então ela só tentava chegar em casa, ver se nós foi no riozinho, que a fulana de tal tá de luto porque Piraquara.

Sabe o que quer dizer Piraquara? “Toca do Peixe”, em Tupi-Guarani. Ou seja, o lugar da água. Os peixinho da Dona Maria se jogava, nem todos, tá ligado, emergia, nem todos voltava. Os poucos que ficava causava um oceano de tristeza. Tá ligado? Isso acontecia lá. Então a mãe olhava, falava: “Você fez isso?” Porque ela via ali a tua… a cueca molhada ou as canela tudo branca, ó… tá ligado? Então muitas mães em luto, muita violência, né, mano? É disso que a gente estava falando, né? Violência, né, mano?

BFC: a migração para o PT

Renato Freitas: quando eu entrei na universidade. Primeiro foi o curso de 2004, fiz um ano e pouco porque. Era só diurno, Ciências Sociais. Tive que voltar a trabalhar. Até hoje é assim. “Sociais, ô socialista aí tá na hora de ter uma revolução proletária aí, hein? Não é por nada, nada pessoal, mas eu dou meu testemunho, só isso”. Falei: “Opa, tem um partido que diz que tem uma luta de classes e tem um outro partido que reconhece que há também um movimento, melhor dizendo, que reconhece que há, além dessa luta de classes, uma luta de libertação negra, indígena contra colonizadores que se comportam como exército de ocupação nos postos-chave da política e da economia aqui no nosso território, manipulando a grande mídia e construindo informações que não existem e versões que são como as versões dos policiais depois que matam um pobre coitado num poste, com a luz apagada. Não! Não, não, não… Ó o policial que matou a mulher lá. Você viu o que que ele falava? ‘Sou macho alfa, você tem que ser a fêmea beta, eu mando, você obedece, você é minha costela. Pátria, Deus, família, religião’. Hipocrisia, pilantras, adoradores da morte. Porque ele tem centenas de mortes. As almas dos inocentes clamam sobre os ombros dessas pessoas que, ora, andam de peito estufado e têm as suas almas rastejantes, sebosas, que não servem nem para o cachorro beber. O fascismo é uma falha de caráter, além, claro, de uma demonstração escandalosa de ignorância e idiotice,. Verdade seja dita. E na universidade tive contato com isso. Então fui logo para os partidos de esquerda que reconheciam a história. A luta racial anticolonial e também, obviamente, anticapitalista. Porque o mundo também funciona entre os que têm e os que não têm, além dos que são e os que não são. E a dialética está ali. Eu vivi isso dentro da minha casa as duas coisas: nós fomos da rua os mais pobres e eu fui da minha casa o mais pretinho.

Em 2005 tem reforma da previdência. Gera revolta dentro de setores mais combativos dentro do partido (PT), que já fala: “Opa, retirando direito de trabalhadores na hora de ir para a mesa de negociação já não começa bem.” Então a gente já vai dar um sinal aqui, que eram os mais radicais. E daí já foram lá e formaram o PSOL. E foi uma coisa muito bonita ali. Foi necessária. Heloísa Helena e Plínio de Arruda Sampaio, Luciana Genro, teve muita gente que estava envolvida nesse processo entre parlamentares. Foi um movimento de parlamentares e universitários. E por ser um movimento de universitários, dali também acabou se acometendo de uma série de vícios que são vícios de pertencimento.

Eu sempre estive em campanha eleitoral no PSOL. Fiz campanha para Heloísa Helena, para o Plínio e outras candidaturas. Porque eu me filiei, porque eu entrei com a galera na universidade. Não sabia nada, mas entrei meio que ali. Para mim não tinha tanta discussão para saber se o outro é trotskista, stalinista, marxista, materialista, berberista. Se está todo mundo mais ou menos ali, vamos tentar ver até onde nós chegamos primeiro para depois se dividir. Só que parece que é mais um despretígio, uma playboyzada que não acaba, a universitária com o umbigo do tamanho do sol. Reluzente, que ele gosta de ficar lambendo todo dia, e você fala: “Essa criança aí sempre teve tudo!” Esse que é o problema. Veio da creche particular, do colégio particular, do leitinho de manteiga no cacau. Johnson & Johnson, de formiguinha. Gelzinho, propaganda da margarina. E de repente ele quer ser a nossa voz? Opa, calma lá! Mas beleza, nós estamos na humilde, vamos somar. Porque tem bastante gente que é para somar também, não estou generalizando não. Pelo contrário, reconheço os sonhos. O desejo. Prefiro quem vive de desejo do que quem não vive de desejo algum. Porque quem vive de desejo algum vive se castrando e quer castrar o próximo por puro recalque. E daí ainda tem coragem de vir à praça pública e falar: “Eu, homem de bem! Eles, homens de não bem!”.

Melhor quem acredita do que quem não acredita porra alguma. Essa que é a fita. Só que eles acreditavam e queriam transformar o mundo, mas tinham que começar só por eles. E daí eu acho que não. Eu acho que não, sabe por quê? Porque o tempo, as 24 horas deles não são as minhas 24 horas. Fiz campanha tudo, sempre estive lá na trincheira, distribuindo panfleto. Nunca me convidaram na faculdade para ser o secretário, sei lá do quê. “A caixa para carregar, esse cara é bom. E é gente boa! Mas agora para esse cara louco aí dar uma decisão”. Daí você é louco. Eu sou gente boa, mas também não é para tanto. Na universidade as universitárias que mandam. E eu sou favelado, e na favela os favelados que mandam. Agora eu vou falar, a favela mete o pé e chega em qualquer lugar, sabe entrar e sabe sair. Com as universitárias, eu acho que não. Daí você me pergunta: “Então, quanto que os caras queriam te convidar, acreditavam em você?” Não, não acreditavam. Achavam que três, quatro lá ia concorrer de verdade e eu ia estar só somando o caldo. Beleza, mas não dá nada, vamos na balada. Agora você me pergunta: “O que que eles te deram? Santinho, pelo menos?” Opa, opa, pelo menos um santinho, santinho, santinho… Pô, nem um santinho… “Ah, mas deram mil reais. Nem os mil reais chegou. “Não, mas deram 5,50 um dia da passagem para você…” Opa! Nem os 5,50 chegou. “Ah, mas deram aquela orientação monstra, aquelas reunião lá, é assim e assado, porque é tua primeira vez.”

Na campanha eu fui para cima, fiz campanha de verdade e tive 3.500 votos. Fui o mais votado da história do PSOL (de Curitiba) naquele momento. E a única pessoa que quebrou essa barreira foi, por nossa sorte, a Professora Ângela. Ótima professora, um forte abraço. Ela nem era do PSOL nessa época, para você ter ideia, ela era do PT. Ela fez caminho inverso. Então não estou falando do partido. Só estou falando daquela gestão, daquele momento e desse imbróglio, dessa fita, do meu testemunho. E a fita é o seguinte: daí eu falei: “Mano, depois que eu tive votação, os caras ficaram de cara: Daeonde que esse cara tinha tanto voto, esse doido? Ah, ele bate de frente com a polícia. Que a polícia vem, xinga, quer dar tapa, bater a testa na parede, quer dar chute no saco, xingar de filha da puta, de macaco, quer humilhar? Que não, filho. “Eu tenho o meu direito de ir, de vir, de permanecer, de ter a minha dignidade como cidadão e ser humano respeitada. Por senhor e qualquer um, e sobretudo pelo senhor que é servidor público e tem esse dever. Então o senhor, por favor, não incorra em nenhuma lei de abuso de autoridade, porque eu conheço os meus direitos”. Agora, até eu começar a rezar esse patuá o cara já tinha me dado alguma, já estava de costas, o cara já tinha me algemado. E eu olhava no olho deles. Eu ia falar que olhava com ódio, mas olhava sobretudo com coragem. Porque eu estava com a coragem de quem estava certo. E isso daí eu não abro mão. Isso daí acontece na minha vida desde 2004, minha primeira passagem por desacato, que é o que eles podem falar depois que o cara já moeu tudo, já te desrespeitou, te bateu, te prendeu… e daí ele vai lá e fala: ‘Ele me chamou de cuzão’. Pronto. Uma mentira de farda vale tipo dez verdades.”

A minha decisão de sair do PSOL para o PT, inclusive tem uma carta de desfiliação ao PSOL, tem todas as razões de fato que eu estava sentindo naquele momento. A principal e central era essa: o PSOL por estar na universidade não tem condição de estar na periferia lutando contra o fascismo. E o fascismo não afeta primeiramente a universidade, os bonitos. Não, o fascismo afeta a periferia, a favela lá no CIC, do 29 de Março foi onde aconteceu a fita que eu falei. Eles mataram, tocaram o terror, não acreditaram que a guria estava grávida, torturaram. Daí quando deixaram a guria ir para o hospital, ela perdeu o filho no caminho. “Ah, a vida pelas mulheres…” Nem todas as mulheres. A gente sabe disso. Vamos parar. “Ah, a vida por vários movimentos aí que do “eu” mesmo…” Para eles não luta nem pelo “eu” maior, só pelo “eu” mesmo. Muito mais pelo próprio “eu”. Do que pelo próximo ou pelo outro. Por isso eu falei, eu vou para o PT. Pelo menos é um partido de massa. Eu consigo continuar a luta do núcleo periférico, que é quem a gente carrega no peito. Já tinha essa bandeira, núcleo periférico tem 13 anos. Vou voltar para a periferia aqui mais fortalecido. Ledo engano. Fiz a campanha, o PT não me deu um real. Me tirou também para “laranja”. Não tive muita força, tive que tentar fazer uma manobra ali, fazer dobrada, levar o panfleto dos outros. Não falo com mágoa, mas falo para quem quiser também, se duvidar, acessar o TRE e ver quanto que foi doado para mim em termos de campanha eleitoral em 2018, que é a minha primeira depois do PT ter me convidado para entrar. Não falo com mágoa, volto a dizer, mas só estou falando a verdade. Outra coisa também deixou a gente desgostoso: “Ah, Bolsonaro para o segundo turno melhor para a gente, que daí polariza os setores mais esclarecidos da direita liberal. Vão comprar a nossa contra o fascismo porque onde já se viu fascismo é coisa feia.” De repente não existe direita limpinha, cheirosa e bonitinha. Aquele da direita que jantava ao seu lado não jantava ao seu lado como amigo. Jantava ao seu lado como cúmplice dos crimes que ele cometia e te via também cometendo, nem que seja por omissão. Não tinha boa intenção. Aquela estratégia toda era só justificativa para poder estar ali engordando. Quando você é oposição ao sistema por muito, muito tempo, você passa a não ser mais oposição, você é associado. A força do sistema.

Fiquei no PT, fiz a luta contra o bolsonarismo, fiz campanha forte para o Lula, fomos para cima. Perdemos. Sabe como que eu vi? Lembro até hoje. Estava no Centro Cívico, olhei uns camelôs ainda, com camiseta de um candidato. Eu já tinha visto que uns pré-adolescente bobos davam risada dele no CQC, porque ele era idiota e falava idiotice. Falei: “Ah, um idiota falando idiotice, até aí para mim tudo normal” Mas de repente começaram a dar ibope para ele. Daí virou os jovenzinhos pré-adolescentes e pessoas acima de 60 anos. Falei: “Uniu já duas gerações e de repente entrou na religião forte, na família de bem tradicional, classe média, branca, à lá Curitiba, Santa Catarina.”

Primeiro, o Bolsonaro naquele momento era novidade. Ele chegava falando que ia resolver todos os problemas, que só ele era de Deus, do bem, legal, impinho. Virou uma autopropaganda e como a sociedade já estava suficientemente alienada e condicionada a pensar como ele. Pensa no (deputado federal) Nikolas Ferreira: ‘Eu sou do bem, eu sou legal, eu sou de Deus, eu sou honesto, eu sou trabalhador, eu só tenho mérito, acordo cedo, durmo tarde, eu sou um bom pai, eu sou um bom filho, eu sou do Espírito Santo, amém, eu sou… para mim está faltando pouco aí para ser chamado e convocado na seleção dos grandes. Quem não gosta de você é meio que contra o Brasil, meio que contra Deus, meio que contra a família, meio que contra a vida. Então é melhor estar do teu lado. Agora, o que que você defende então . Na economia… ‘Ah, na economia eu defendo privatização.’ Opa, mas privatização não é aquele bagulho que tanto a Globo quanto a Gazeta do Povo defende também? Tanto a revista Piauí… opa, daí não, já é o campo da esquerda. Tem algumas opções de esquerda. O Nexo? Não sei. É de esquerda? Não sei. Le Monde, Carta Capital, Brasil de Fato, Mídia Ninja. Tem alguns, mas ainda são muito poucos e fracos frente a eles, que no Brasil é um monopólio escandaloso. Eles condicionaram um senso comum tão bobo, tão rasteiro, mas tão permanente… Olha (a novela) ‘Senhora do Destino’. Uma mulher que é senhora do seu destino pô, sem marido, uma penca de filho, do nordeste, para a selva de concreto e vira uma empresária bem-sucedida, leve, sem cicatriz. Então você pode ser senhor do seu destino? Eu acho que não, olha nós negros como somos representados. Nós fomos humilhados na tela da TV e agora eles querem prestar homenagens? Ih, eu não nasci ontem não! Nossos passos e a nossa memória e a nossa história vem de longe. E aqui em Curitiba? Os caras formam esse núcleo e daí você repete um monte de baboseira, senso comum, fácil para quem não quer pensar. E também a esquerda dá vários erros. A hipocrisia da esquerda também é alimento para eles. Vai ver o Banco Master, não é por nada, mas é claro que alguém da esquerda. Nós não estamos aqui passando a mão na cara do povo para defender nosso time não. Isso não é um jogo, que perdendo ou ganhando não tem resultado nas nossas vidas cotidianas. Tem todo o resultado! A nossa vida, inclusive como a gente está falando da política de morte promovida pelo bolsonarismo, está em jogo, em risco. O antipetismo também foi fermentado por muito tempo.

Porque o cara nunca leu na escola, nenhum filme nunca falou se não o enlatado hollywoodiano. Porque a novela criou esse espectro do fantasma do comunismo. Porque a religião já falou que era contra Deus. O empresário que de fato manda na sociedade fala que é contra ele em especial, a distribuição da renda.

BFC: a pré-candidatura à Câmara Federal

Renato Freitas: Eu acho que sim. Acho não, tenho certeza (da pré-candidatura a deputado federal). Já o caminho está pavimentado na nossa luta cotidiana. A gente não aparece só no ano eleitoral para dar as caras.

Eu acredito que Brasília é uma possibilidade de compreender o Brasil real que eu compreendo a partir da visão de quem estava lá no fundão. Da margem. Para para não morrer. Correndo, atravessando. E agora no parlamento estadual eu vejo do coração do poder. Perto do cérebro. Porque o cérebro a gente sabe que são os detentores do dinheiro e das armas. Esses que se curvaram aos Estados Unidos, que é o senhor das armas, porque no final o poder é a arma. Nenhuma crítica resiste à crítica das armas. Sobre elas, as armas da crítica são fulminadas. E lá eu vi, de fato, os detentores desse poder que eu tive a possibilidade de me aproximar aqui. Mas lá… os coronéis daqui também estão lá. Vai ver onde que está o (deputado Pedro) Lupion, (Ricardo) Barros e etc.

Eu venho de um lugar que muitos conhecidos, muitos amigos, eu vi muitos jovens que foram assassinados em nome de uma ideologia que faz parte da tradição brasileira de domínio colonial, que é a tradição da reação pelo extermínio. Pensa comigo: o que foi o Quilombo dos Palmares se não a liberdade, a reação que levou à liberdade? A revolução que levou à liberdade. Exterminada por exércitos reacionários que colocam a vida em risco para manter seus privilégios. A mira do próximo para manter a sua de qualquer um que entre na frente. Sobretudo por isso que o Malcolm X diz que a verdade está ao lado dos oprimidos. Por isso que o Malcolm X diz que em toda e qualquer sociedade a coisa mais perigosa que existe é uma pessoa sem nada a perder, porque ela tem tudo a ganhar. Nesse lugar muita gente perdeu a vida, porque eles disseram “bandido bom é bandido morto”. E tiraram a vida dessas pessoas aos montes, colocaram como números positivos, dizendo que é assim que se mede a segurança pública: quanto mais mães chorando, mais a sociedade tem que estar feliz, e não menos homicídios, como são nos mundos que eles dizem admirar, em que as pessoas valorizam a vida humana. Essa é a polícia que mais mata. “Ah, a polícia que mais morre também!” Mentira. Malditos mentirosos. Se você colocar a polícia em exercício não é a que mais morre. Polícia que mais morre porque eles colocam nesses números os bicos que eles fazem para propriedade privada para defender interesses alheios ao público. E colocam em riscos muito maiores, porque sem viatura, sem equipe, sem nenhuma condição.

Agora sabe qual que é a principal causa da morte policial? Suicídio. A forma deturpada que deteriora a identidade, que perverte o espírito, que eles são treinados. De humilhações para obedecer hierarquia, respeitar disciplinas que nada dizem e conversam com a justiça. Hierarquias a partir de laços de subserviência. Vai para a rua e quer replicar esse modelo com quem? Com o cidadão. Qualquer cidadão? Não, né? O mais fudido, mais pobre que tá lá no fundão mesmo que ninguém liga. Se morrer já tem uma passagem (pela polícia), a galera vai bater palma. Aquele ali é alvo de tortura. Vamos fazer um laboratório, experiência laboratorial, vamos arrancar… vamos escalpelar… igual a polícia militar fez lá no CIC (bairro periférico de Curitiba), quando queimaram um monte de casas anos atrás. Mais de cem, 160 casas acho que foi. Escalpelou gente, arrancou orelha de pessoas, passou dando tiro. Em um cenário como esse, aquele que chega, levanta e fala “bandido bom é bandido morto”, como a morte do leiteiro lá do Carlos Drummond, que já denunciava isso, como agora e há muito tempo o Rap, o Samba, a nossa voz, a voz indígena, escravizada, explorada, empobrecida, miserabilizada, migrantes, mães solteiras, órfãos e viúvas. Quantas pessoas não ficaram sem voz? Não puderam falar nada? Não puderam nem dizer o que estava acontecendo com eles mesmos? Hoje eu, que vivi, não li, não assisti. Forrest Gump é mato! Eu prefiro contar minha história também. Minha história é essa: eu vivi.

A gente pode contar nossa história dizendo “não, vocês são hipócritas e estão colocando a nossa vida em risco e levando nossos jovens para o altar da segurança pública em que o deus é o dinheiro e sacrificando vidas inocentes para satisfazer a cólera do populacho raivoso que facilmente faz do seu fígado o seu cérebro”. Não! A gente pode mais que isso e a gente pode ir enfrentando. Eu enfrentei o fascismo desde o primeiro momento.

BFC: os processos

Renato Freitas: O último (processo) foi do (supermercado) Muffato. Eu falei para eles que não vou participar dessa palhaçada que era uma audiência que eles estavam fazendo interrogando o pai. O pai do rapaz de 20 anos que foi assassinado por uma barra de chocolate de R$ 3,99. Bateram, chutaram, asfixiaram, mataram, arrastaram o corpo e jogaram do lado da via pública,como se fosse nada, com as calças arriadas. As pessoas da janela da vizinhança falando: “Levanta as calças do menino, covardia!” Não sabiam que o menino estava morto. Daí eu vou lá manifestar e falar para essa sociedade: “Acorda! Por se multiplicarem as iniquidades, o amor de muitos se esfriará.” E todos, com gelo que não pulsava numa fila de mercado, com dinheiro na mão para fazer o que fazem todos os dias até que a morte chegue. E ali um morto, um ser humano na frente, desviou, sangue no caixa, o vulto mano. E daí têm que me processar por estar tentando falar isso? “Ah, mas espera aí, de um ângulo tal parece que você pegou uma cesta que no revés a mulher parece que ela tentou também pegar e daí está certo? E agora? Papo de pegadinha.”

Não, mano, calma aí! A gente já fala da tua mesquinharia, mas vamos e aqui? Quem responde por isso? O mercado tinha uma campanha que promovia um ódio permanente contra pessoas que supostamente estivessem tentando cometer delito, igual a Havan faz, igual outras bolsonaristas fazem. Então instigou. O resultado desse instigamento recaiu bem dentro do mercado. Quem ouve todos os dias a campanha? Funcionários do mercado. Imbuído desse sentimento criado como lavagem cerebral pela própria loja, eles assassinaram uma pessoa. E aí? Não vamos falar sobre isso?.

BFC: a prefeitura de Curitiba

Renato Freitas: sabia que quando as pessoas me falam isso, eu dou uma resposta que eu mesmo dou risada? Que é a seguinte: é mais fácil eu ser presidente do Brasil do que prefeito de Curitiba. O bagulho é louco! Mas quem sabe, né? Essas ruas aqui, ó. Eu sou uma pessoa pública. Porque eu nasci aqui, e me criei em praça pública, irmão. E essas pessoas que se dizem públicas? Quando eu estava na rua, onde que elas estavam? Não era nas praças públicas. Não era no domínio público das cidades. Era no domínio privado, porque no domínio privado eles têm grandes latifúndios, não precisam nem se misturar com o populacho. E o populacho aplaude porque eles têm ou as armas ou eles a mídia para quem está inclinado por uma migalha dizer amém.

Bookmark

Ivan Santos

Jornalista com três décadas de experiência, com passagem pelos jornais Indústria & Comércio, Correio de Notícias, Folha de Londrina e Gazeta do Povo. Foi editor de Política do Jornal do Estado/portal Bem Paraná.

Mais Matérias

16 abr 2026

Brasil Quer Mais Tempo: conheça e participe da campanha pelo fim da escala 6×1

Movimento nacional aposta em pressão popular para acelerar discussão sobre jornada no Congresso
17 abr 2026

Adeus ao “Mão Santa”: Oscar Schmidt morre e deixa legado histórico

Ex-jogador era recordista mundial de pontos e referência do basquete brasileiro
17 abr 2026

Crueldade: cachorro caramelo comunitário é baleado por policial no RJ

Moradores locais acusam um policial que reside no bairro de ter efetuado o disparo por não gostar de animais
17 abr 2026

Tarcísio participou de jantar com empresário do funk preso em operação da PF

Encontro ocorreu meses antes de prisão em investigação que apura movimentações bilionárias com elo no crime organizado
17 abr 2026

Brasil registra mais de 1 milhão de atendimentos por violência contra mulheres

Dados oficiais mostram avanço das denúncias e rotina de agressões, principalmente dentro de casa
17 abr 2026

Line-up do AFROPUNK 2026 reúne Gilberto Gil, Emicida e Jorja Smith

Festival reforça protagonismo cultural com atrações de peso e agenda ampliada em 2026

Como você se sente com esta matéria?

Vamos construir a notícia juntos

Deixe seu comentário