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“Agudo Grave”: Zélia Duncan enfrenta a era da IA e das incertezas em um dos álbuns mais ousados da carreira

(Foto: Mauro Restiffe)

Enquanto boa parte da música brasileira contemporânea corre atrás de tendências, algoritmos e fórmulas de consumo rápido, Zélia Duncan segue na direção oposta. Lançado em maio, o álbum “Agudo Grave” reafirma essa postura ao apresentar um trabalho que prefere provocar reflexão a disputar espaço nas playlists descartáveis do momento.

O disco chega em um período marcado por instabilidade política, ansiedade coletiva e excesso de estímulos digitais. Nesse contexto, Zélia transforma inquietações contemporâneas em matéria-prima artística. O resultado é um álbum introspectivo, mas distante da melancolia paralisante que permeia as seleções de streaming. Há densidade, questionamento e desconforto, elementos que fazem falta em uma cena musical frequentemente acomodada em fórmulas previsíveis.

A principal força de “Agudo Grave” está na capacidade de transformar contradições em narrativa. As canções transitam entre afeto e estranhamento, discutindo as relações entre tecnologia e humanidade, e as disparidades entre silêncio e ruído. Faixas como “E Aí, IA?” e “Olhos de Cimento” revelam uma artista atenta às transformações do mundo, sem cair no moralismo ou na crítica superficial. Em vez de oferecer respostas, Zélia prefere lançar perguntas.

A parceria com a produtora Maria Beraldo é decisiva para esse resultado. Os arranjos criam camadas sonoras que desafiam a audição convencional e ampliam o alcance poético das composições. Em alguns momentos, a experimentação se sobrepõe às melodias, gerando pequenas irregularidades ao longo da obra. Ainda assim, essas oscilações parecem fazer parte da própria proposta do álbum: abraçar o imperfeito e o contraditório.

Os convidados, como Lenine e Alberto Continentino, reforçam a riqueza do repertório, mas sem roubar o protagonismo da cantora, auxiliando-a em duas das melhores canções do trabalho, “Pontes no Ar” e “Maravilha Disforme”. Tudo gira em torno da identidade artística de Zélia, que chega ao seu novo trabalho sem a necessidade de provar nada a ninguém.

“Agudo Grave” talvez não seja a obra definitiva de sua carreira, mas está entre seus discos mais corajosos. Em tempos de certezas fabricadas e discursos simplificados, Zélia Duncan escolhe o caminho mais difícil: o da dúvida e da inquietação, fazendo com que sua arte permaneça ecoando depois que a última faixa termina.

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Henrique Romanine

Jornalista, colecionador de vinil e apaixonado por animais, cinema, música e literatura. Inclusive, sem esses quatro, a vida seria um fardo.

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