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Bem-vindo a Santa Catarina: Onde se vota na direita e se vive no socialismo.

Bem-vindo a Santa Catarina: Onde se vota na direita e se vive no socialismo.

Por Sergio Lamim
Imagina você morar no interior. Uma cidade dentro de um vale, cercado por montanhas, um rio belíssimo e enorme, mata atlântica e tropical por todo lado. Essa foi a minha realidade. Eu morava no interior de Indaial, em Santa Catarina.

Por lá, cresci com algumas vivências sobre as quais só fui ter consciência agora, depois de adulto. Frequentava com minha família o supermercado Cooper, uma cooperativa criada em março de 1944, quando 101 operários da Companhia Hering se uniram para fundar a antiga CooperHering. O objetivo inicial era puramente assistencial: conseguir comprar e distribuir alimentos a preços mais acessíveis para os funcionários da fábrica em uma época de forte escassez por causa da Segunda Guerra Mundial.

Desde criança, esse mercado sempre me chamou a atenção por algo em suas campanhas: o convite constante para que as pessoas fossem suas “cooperadas”. Uma das vantagens era receber anualmente o “retorno das sobras”, calculado com base no valor das compras ao longo do ano. Você pode pensar: “Nossa, um cashback”. Mas não é isso. Trata-se do excedente de um dinheiro que sobrou e não foi parar no bolso de um único patrão ou acionista distante, mas sim de quem ajudou a construir aquele resultado.

Parte do meu encantamento quando criança era ver, ao circular pelo interior da cidade, várias fazendas que exibiam com orgulho em seus terrenos a placa de “cooperado da Cooper”. Ali, naquelas famílias, era produzida parte dos alimentos (praticamente todos orgânicos) vendidos nas gôndolas do mercado. Hoje sei que aquelas pessoas eram, na prática, “sócias” do sistema.

E a coisa não parava no mercado. Via meus pais e familiares de amigos defenderem e indicarem bancos como a Viacredi e o Sicoob. Instituições que ofereciam, e ainda oferecem, taxas de juros mais competitivas e, assim como o mercado, um retorno das sobras ao fim do ano, caindo em dinheiro direto na conta dos cooperados.

Anos depois, após uma ascensão à consciência política e minha atuação na sociedade, percebi uma enorme contradição vinda do meu estado natal. Esse sistema não é exclusivo de Indaial: ele se estende por toda Santa Catarina e pela Região Sul do Brasil. E veja que irônico: estamos falando de uma das regiões em que as pessoas mais se identificam com a direita conservadora. Como pode um eleitorado que rejeita categoricamente o coletivismo viver, defender e depender diariamente de empresas cujas bases foram dadas pelo socialismo utópico?

Democracia de raiz e o dinheiro que fica na comunidade

Para entender o tamanho do nó ideológico, vale olhar para a estrutura. No Itaú ou no Carrefour, quem detém 51% das ações manda em tudo. Na cooperativa, o dono da maior fábrica têxtil da região e o microempreendedor individual têm exatamente o mesmo poder na assembleia geral do banco. Isso é democracia direta na raiz. A pessoa pode até ter uma empresa que movimente metade da economia local, mas por ser um indivíduo, ela tem direito a exatamente 1 Pessoa = 1 Voto.

Além disso, o dinheiro excedente não vai para um fundo de investimentos na Faria Lima. Ele volta para o bolso do cooperado ou é destinado por lei (pela Lei nº 5.764/1971) para o Fundo de Reserva e para o FATES (Fundo de Assistência Técnica, Educacional e Social). São recursos indivisíveis, que não pertencem a um capitalista isolado, mas sim ao patrimônio coletivo da comunidade.

A ironia fica ainda maior quando percebemos que a doutrina cooperativista nasceu com pensadores do socialismo utópico do século XIX, como Robert Owen e os Pioneiros de Rochdale. Eles desenharam o modelo para combater a exploração do capital sobre o trabalho, eliminar a figura do atravessador e garantir que os meios de produção fossem comunitários.

O mapa do cooperativismo e as urnas de 2022

Se você acha que esse modelo é “coisa de bairro” ou um arranjo romântico de cidade pequena, os dados do Anuário do Cooperativismo mostram o oposto. O setor reúne mais de 29 milhões de cooperados no país e movimenta R$ 848,4 bilhões. Mas o cruzamento mais revelador acontece quando colocamos o mapa das cooperativas ao lado do mapa eleitoral de 2022.

Minas Gerais lidera o ranking nacional em quantidade absoluta de cooperativas registradas. Já o estado de São Paulo ocupa o topo em número de cooperados, ultrapassando 5,1 milhões de associados. Quando olhamos para a Região Sul e o Centro-Oeste (com destaque para Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso), encontramos a maior concentração do faturamento agroindustrial e de crédito do país.

Agora, adivinhe como esses mesmos estados votaram no segundo turno das eleições presidenciais de 2022? Em Santa Catarina, terra da minha infância e da COOPER, Jair Bolsonaro obteve 69,27% dos votos válidos. No Mato Grosso, alcançou 65,08%. No Paraná, somou 62,40%. No Rio Grande do Sul, obteve 56,35%. E em São Paulo, atingiu 55,24%.

Ou seja, os maiores alicerces do eleitorado conservador do Brasil são, rigorosamente, os lugares onde a população mais produz, consome e guarda dinheiro dentro de estruturas comunitárias.

É nessa geografia que operam gigantes do setor. No Paraná, a Coamo é a maior cooperativa agropecuária da América Latina, faturando R$ 28,2 bilhões. Em São Paulo, a Copersucar domina o mercado mundial de açúcar e etanol. Na saúde, a Unimed é a maior rede de cooperativas médicas do mundo. No cenário global, a maior cooperativa do planeta é o banco francês Groupe Crédit Agricole, que fatura mais de US$ 117 bilhões por ano operando sob essa mesma lógica comunitária.

Mas como o conservadorismo engole essa conta sem ter uma crise existencial? A resposta está no marketing do cotidiano.

O agronegócio e a classe média conservadora do Sul fizeram um ‘rebranding’ do socialismo. Tiraram a foice, o martelo e o discurso de luta de classes, e colocaram governança corporativa, selo ESG e ganho de escala.

Palavras históricas como “coletivismo”, “propriedade comunitária” e “solidariedade” foram banidas do vocabulário e substituídas por “eficiência agroindustrial”, “gestão de ativos” e “competitividade de mercado”.

O pragmatismo genial do conservador cooperado

O produtor rural do Sul se sente o próprio empresário autônomo, dono do seu destino e defensor ferrenho da propriedade privada. Ele mantém a posse individual da sua terra ou da sua casa, preservando o seu lado capitalista, mas usa a cooperativa como um escudo protetor contra as multinacionais e os grandes mafiosos da Faria Lima. Sem a cooperativa, esses pequenos e médios produtores seriam devorados por conglomerados globais e transformados em meros trabalhadores assalariados.

Eles rejeitam veementemente o “Socialismo de Estado” (aquele com intervenção governamental, burocracia e força juridica pública), mas praticam com entusiasmo o “Socialismo Operacional”, no qual a comunidade se une voluntariamente, divide os meios de armazenamento e produção, e vota de forma igualitária para disputar o mercado em pé de igualdade.

Na próxima vez em que você estiver na fila do caixa de um mercado cooperativista ou acompanhando o rendimento das suas cotas em um banco de cooperados, faça um teste silencioso. Observe o cidadão ao lado, ostentando orgulhosamente sua camiseta verde e amarela e defendendo o livre mercado absoluto no grupo de WhatsApp da família.

Ele não é hipócrita, ele é apenas um utilitarista brilhante. Ele descobriu que a utopia do coletivismo só não deu certo no resto do mundo porque faltou colocar uma boa gestão profissional, um selo ESG e um retorno das sobras na conta bancária no final do ano.

No fundo, a direita do sul e centro oeste do Brasil não odeia o socialismo. Ela só odeia o nome. Se você embalar a divisão dos meios de produção, o voto igualitário e a distribuição de riqueza em um belo papel de presente com o slogan da cooperativa local, eles não apenas compram: eles viram sócios, pedem nota fiscal com CPF e ainda levam a família inteira para a assembleia de domingo. E, sinceramente? Como publicitário, eu tenho que tirar o chapéu para essa verdadeira aula de branding.

Referências:

Anuários e Relatórios de Cooperativismo

Anuário do Cooperativismo Brasileiro (Sistema OCB): somoscooperativismo.coop.br/anuariocoop
AnuárioCoop – 29 Milhões de Cooperados (Sistema OCB/RJ): rio.coop/anuariocoop-2026-cooperativismo-chega-a-29-milhoes-de-cooperados/
World Cooperative Monitor 2025 – Brasil no Ranking Global (Sistema OCB): somoscooperativismo.coop.br/noticias-representacao/wcm-2025-brasil-mantem-forca-no-ranking-global-de-cooperativas
World Cooperative Monitor – Metodologia Global (ICA/Euricse): monitor.coop/en/methodology

Dados Eleitorais e Análises Jornalísticas

Resultado para Presidente no 2º Turno por Estado em 2022 (Estadão): estadao.com.br/politica/veja-resultado-para-presidente-no-segundo-turno-em-todos-os-estados-e-capitais-do-brasil/
Quantas são e onde ficam as cooperativas do Brasil (Nexo Jornal): nexojornal.com.br/grafico/2026/08/10/o-que-e-cooperativa-cooperativismo-no-brasil

Legislação e Casos de Gestão

Lei Federal nº 5.764, de 16/12/1971 (Senado Federal): legis.senado.leg.br/norma/547640
C.Vale entre as Cooperativas com Melhor Gestão (Portal Boa Notícia): portalboanoticia.com.br/c-vale-entre-as-cooperativas-com-a-melhor-gestao-do-brasil/

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