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A Copa é em 2027, mas o futuro do futebol feminino também passa pelas urnas em 2026

A Copa é em 2027, mas o futuro do futebol feminino também passa pelas urnas em 2026

Por Gabi Sabino
Em outubro, o Brasil vai escolher presidente, governadores, deputados e senadores. No ano seguinte, receberá a primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul. São dois acontecimentos que provavelmente ocuparão boa parte do debate público nos próximos meses e que, embora pareçam pertencer a universos diferentes, estão diretamente relacionados.

Tenho trabalhado há alguns anos com futebol feminino de base e uma das discussões que mais me interessam hoje é justamente o legado da Copa de 2027. Existe uma expectativa enorme em torno do torneio, e com razão. Uma Copa realizada no Brasil pode ampliar a audiência, atrair investimentos, movimentar negócios, gerar empregos e apresentar o futebol feminino a meninas que talvez nunca tenham se imaginado dentro de um campo.

Mas nada disso garante, por si só, que teremos um futebol feminino mais estruturado depois de 2027.

O legado depende das decisões que o país tomar antes e depois da competição. E muitas dessas decisões são políticas.

O governo federal já criou estruturas específicas para a preparação da Copa e para a discussão de seu legado. A legislação aprovada para o Mundial incorporou temas como igualdade de oportunidades no esporte, estímulo à participação de meninas e mulheres, formação, arbitragem, gestão e enfrentamento à violência. O próprio debate sobre o legado deixou de estar restrito à realização do evento e passou a incluir o que poderá permanecer depois dele.

É justamente aí que as eleições deste ano ganham outra dimensão.

Quem assumir o governo em janeiro de 2027 encontrará parte dessa estrutura em andamento. Poderá fortalecê-la, modificá-la, dar continuidade a determinadas prioridades ou colocar outras no lugar. O Congresso eleito este ano também terá influência sobre orçamento, legislação e fiscalização das políticas esportivas.

Por isso, quando penso no avanço da extrema-direita e na possibilidade de esse campo político ampliar seu espaço no Executivo e no Legislativo, minha preocupação não está em saber se seus representantes gostam ou não de futebol feminino. Essa seria uma discussão superficial.

O que me preocupa é a forma como serão tratadas políticas construídas a partir da desigualdade entre homens e mulheres.

Esse debate não começou com a Copa. Meninas e mulheres ainda encontram obstáculos específicos para entrar e permanecer no esporte. Faltam oportunidades na base, estrutura, segurança, campeonatos, profissionais mulheres, perspectivas de carreira e condições para que o futebol seja visto como um espaço possível desde a infância.

Reconhecer essas diferenças importa porque uma política que trata como iguais pessoas que partem de condições muito diferentes pode simplesmente conservar a desigualdade existente.

E é nesse ponto que existem divergências políticas importantes no Brasil.

Nos últimos anos, o governo federal criou a Estratégia Nacional para o Futebol Feminino, estruturou uma diretoria voltada à promoção da modalidade e, com a aproximação da Copa, passou a discutir políticas específicas de legado. Isso não significa que antes não existissem ações federais relacionadas ao futebol feminino. Existiram. Também não significa que tudo o que está sendo feito hoje seja suficiente. Não é. Quem acompanha a realidade da base sabe a distância que ainda existe entre anunciar uma política e fazê-la chegar a uma menina na periferia.

A questão é outra: existe hoje uma estrutura que reconhece a desigualdade de gênero como um problema que também deve ser enfrentado pela política esportiva. E é legítimo perguntar o que acontecerá com essa estrutura dependendo do projeto político escolhido nas urnas.

Essa preocupação não pode ser reduzida a uma disputa entre direita e esquerda sobre futebol. Ela faz parte de uma discussão maior sobre o papel do Estado na promoção da igualdade entre homens e mulheres. Setores da direita e, particularmente, da extrema direita brasileira têm feito oposição a políticas e abordagens baseadas em gênero em diferentes áreas. Isso precisa entrar na análise sobre o futuro das políticas esportivas, assim como precisam entrar as propostas concretas apresentadas por partidos e candidatos para o esporte.

Há ainda o Congresso.

Hoje, as mulheres continuam sendo uma pequena parcela dos deputados e senadores brasileiros. Aumentar essa presença importa, mas seria simplista imaginar que qualquer mulher eleita necessariamente defenderá políticas para mulheres. Não defenderá. Mulheres têm posições políticas diferentes, como deve acontecer em uma democracia.

Por isso, em 2026, talvez seja insuficiente perguntar apenas quantas mulheres serão eleitas. Também precisamos olhar para quem são essas mulheres — e esses homens —, quais compromissos assumem e como enxergam políticas de igualdade, esporte de base, financiamento e desenvolvimento do futebol feminino.

Para quem trabalha com meninas no esporte, essas discussões deixam de ser abstratas rapidamente.

Uma menina não permanece no futebol porque o Brasil sediou uma Copa do Mundo. Ela permanece quando encontra onde treinar, quando sua família consegue levá-la, quando existe uma competição para disputar, quando tem segurança, quando encontra profissionais preparados e quando consegue imaginar algum futuro naquele ambiente.

A Copa pode ajudar muito a criar esse futuro. O tamanho do evento coloca o futebol feminino em uma posição que dificilmente teríamos em circunstâncias normais. Durante alguns meses haverá atenção política, econômica e midiática concentrada sobre a modalidade.

A minha preocupação é com o dia seguinte.

Quando a Copa terminar, o que terá mudado para uma menina que quer jogar futebol em uma periferia brasileira? Quanto do dinheiro movimentado pelo evento terá ajudado a estruturar o futebol feminino? Quantas novas oportunidades terão sido criadas para treinadoras, árbitras, gestoras, jornalistas, empreendedoras e outras profissionais? E quais políticas continuarão existindo quando a Copa deixar de ser notícia?

Essas perguntas serão respondidas ao longo dos próximos anos, mas parte das pessoas responsáveis por respondê-las será escolhida nas eleições deste ano.

Talvez essa seja uma das discussões que ainda fazemos pouco quando falamos sobre o legado de 2027. Estamos discutindo estádios, audiência, patrocínio e o desempenho que esperamos da seleção brasileira. Precisamos discutir também política.

Porque podemos realizar uma Copa extraordinária e ainda assim desperdiçar a oportunidade que ela representa.

O que vai diferenciar uma grande competição de uma mudança duradoura na realidade do futebol feminino brasileiro será aquilo que conseguirmos construir para depois dela.

E quem governará esse “depois” começa a ser decidido nas urnas de 2026.

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