Para Jessé Souza, esquerda tem que voltar a disputar ideias dominantes
Autor de mais de 30 livros, entre eles os best sellers!”A elite do atraso” e “O pobre de direita”, o cientista político Jessé Souza se notabilizou como uma das vozes mais contundentes e críticas sobre a histórica desigualdade social do Brasil, bem como suas raízes no colonialismo e no escravagismo.
Presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) durante o governo de Dilma Rousseff (PT), ele acompanhou de perto o processo de impeachment desferido contra a presidente, orquestrado por elites econômicas e políticas inconformadas com a ascensão social da classe trabalhadora, e que lhe rendeu o segundo lugar no Prêmio Jabuti na categoria Ciências Humanas pela obra “A Radiografia do Golpe”.
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Atualmente, Jessé está com novo título nas livrarias: “Porque a esquerda morreu ? – e o que devemos fazer para ressuscitá-la”, em que ele volta até as revoluções que atingiram o planeta entre os anos 1960 e 1970, e que, segundo ele, foram instrumentalizadas pelas elites e corporações para enfraquecer a consciência política da classe trabalhadora com o falso discurso do “empreendedorismo” e da “meritocracia”.
Imaginário
O cientista explica ainda que o capitalismo mudou, e que é preciso que o campo progressista também se renove, recuperando a capacidade de construir um imaginário social que explique o país “de cabeça para baixo”. Ele sugere usar a escravidão como ponto central, articulando-a com o colonialismo e o imperialismo, para fornecer uma narrativa alternativa que faça sentido ao povo.
“A esquerda jamais disputou as ideias dominantes. Você precisa contar uma história. Explicar para as pessoas por que elas são pobres e miseráveis num país que é rico”, aponta.
Armadilha
Na avaliação de Jessé, a esquerda brasileira em particular, deixou-se cair na armadilha de apontar a corrupção na política como o principal problema do País, aderindo a um moralismo seletivo que apenas esconde a raiz estrutural da nossa desigualdade.
“O PT entra em cena nos anos 80 como o partido da ética na política. Ou seja, pega o veneno que a elite montou para criminalizar o estado, a política, desmoralizar o voto popular e põe como seu o seu objetivo principal”, considera.
Mídia de massa
Entre os erros cometidos pelos progressistas, afirma, está também a falta de articulação para construir uma infraestrutura institucional que leve essas informações para as classes populares, como os meios de comunicação de massa. “A esquerda sequer percebe que existe uma identidade nacional construída pela elite de São Paulo para culpar o próprio povo pela miséria”, observa.
Segundo o sociólogo, a elite brasileira conseguiu inocular na população a ideologia de que a pobreza é fruto não das condições sociais históricas, mas da falta de empenho dos pobres. “E aí a própria elite fica completamente invisível, que é o que ela quer. O principal dispositivo do poder é a invisibilidade”, diz.
Precarização do trabalho
É nesse caldo de cultura que vemos atualmente o avanço da “uberização” e a precarização do trabalho, lembra ele. “Hoje em dia o cara que é pobre, remediado, ganha R$ 2 mil, R$ 5 mil, se acha de classe média. E um imbecil que tem um carro e um apartamento se acha de elite”, exemplifica.
Jessé cita como um “case” de sucesso na disputa pelo imaginário da população, a campanha pela taxação de bets, bancos e bilionários (BBB), que teve êxito em mostrar para os trabalhadores que a raiz das injustiças sociais não é a falta de “meritocracia” dessa classe, mas sim a corrupção do estado e das elites que o domina e o vampiriza. “Como é que ela (a esquerda) vai conquistar a opinião pública, sem explicar o mundo de um modo distinto do que a elite que a oprime faz?”, questiona.
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