Sete anos depois de seu último álbum de estúdio, Rincon Sapiência retorna com “Um Corpo Preto”, lançado em 30 de junho, transformando a espera em um manifesto artístico que desafia tanto os limites do rap brasileiro quanto as expectativas impostas a artistas negros.
Em vez de repetir a fórmula que consolidou seu nome em Galanga Livre e Mundo Manicongo, o rapper paulista amplia o horizonte sonoro e constrói um disco que discute identidade sem abrir mão da experimentação musical.
O conceito do álbum atravessa todas as 17 faixas. O título não funciona apenas como uma declaração estética, mas como o eixo narrativo que orienta a obra, em que o artista parte de experiências pessoais para refletir sobre pertencimento, ancestralidade e as contradições enfrentadas por corpos negros na sociedade brasileira. Rincon evita transformar o discurso em panfleto, e aqui, a crítica social aparece incorporada às canções, nunca acima delas.
A abertura com “Diáspora”, ao lado de Dino D’Santiago, estabelece imediatamente uma conexão entre Brasil, África e Portugal. A faixa sintetiza a proposta do disco ao aproximar diferentes territórios da herança africana em uma produção sofisticada, que abre o caminho para outras canções igualmente poderosas.
Canções como “Eu Vim de Baixo” e “Todo Nego” aprofundam discussões sobre autoestima, memória e mobilidade social, enquanto “Cuidar de Mim” revela um artista disposto a tratar também da vulnerabilidade, rompendo com estereótipos frequentemente associados ao rap.
A diversidade musical é um dos maiores acertos do projeto, que passeia por gêneros distintos como rap, samba, reggae, dancehall, afrobeats, funk e música eletrônica sem que o álbum pareça fragmentado. Em “Alarme”, com Funk Buia, e “Ke$h”, ao lado de F7rança, o peso das batidas dialoga com algumas das letras mais críticas da carreira do rapper.
Já “Faz a Vibe”, com Bren9ve, o cantor privilegia um clima mais descontraído, enquanto “Cassino”, parceria com Lino Krizz, aposta em um groove construído de modo elegante. Em “Mel na Sua Cara”, Mylena Drague acrescenta leveza ao repertório, que permanece em “Avança+”, através da participação versátil de Torya.
Entre os momentos mais marcantes está “Homem Gol”, que reúne Péricles e Marissol Mwaba. A combinação improvável entre o rapper e o cantor de samba resulta em uma das faixas mais acessíveis do disco, mantendo a densidade da obra, cujo videoclipe amplia esse alcance ao valorizar moradores e espaços da Zona Leste paulistana, reforçando a representação coletiva proposta por Rincon.
Nem tudo, porém, alcança o mesmo impacto. Em alguns momentos, o excesso de referências sonoras e conceituais faz determinadas faixas perderem força individual dentro do conjunto. Ainda assim, a unidade do projeto impede que essa dispersão comprometa o resultado final.
Mais do que lançar um novo álbum, Rincon Sapiência reafirma que o rap pode continuar sendo espaço de inovação estética e reflexão social sem abrir mão da musicalidade. “Um Corpo Preto” é, portanto, a maturidade de um artista que prefere expandir sua linguagem a repetir sucessos do passado, entregando uma obra que, muito mais do que provocar e emocionar, evidencia por que ele continua entre os nomes mais inventivos da música brasileira contemporânea.
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