A Justiça do Ceará decidiu abrir ação penal contra quatro homens envolvidos na produção e divulgação do documentário “A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha”, obra vinculada à empresa Brasil Paralelo.
A decisão ocorreu após o Ministério Público estadual apontar que a produção utilizou um laudo pericial adulterado para sustentar uma narrativa que colocava em dúvida a tentativa de homicídio cometida contra a farmacêutica Maria da Penha, marco histórico na luta contra a violência doméstica no Brasil.
De acordo com a denúncia, aceita pelo Judiciário nesta semana, o material audiovisual apresentou um exame de corpo de delito atribuído a Marco Antônio Heredia Viveiros, ex-marido da ativista e condenado pela tentativa de assassinato ocorrida em 1983. A perícia oficial, no entanto, concluiu que o documento exibido no documentário foi manipulado.
A análise técnica identificou alterações no conteúdo original do laudo, com a inclusão de supostas lesões no pescoço e no braço de Heredia que não constavam no documento verdadeiro. Também foram apontadas inconsistências nas assinaturas atribuídas aos peritos e diferenças em carimbos, numeração e rubricas, indícios considerados compatíveis com montagem do material.
Segundo o Ministério Público, o laudo adulterado foi utilizado para sustentar a tese apresentada no documentário de que o crime teria ocorrido durante um suposto assalto, versão já descartada pela investigação policial e pela Justiça décadas atrás. A denúncia afirma que o objetivo seria reescrever os fatos e colocar em dúvida a responsabilidade de Heredia.
Com a aceitação da acusação, tornaram-se réus Marco Antônio Heredia Viveiros, denunciado por falsificação de documento público; o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva, acusado de perseguição e intimidação virtual; além de Marcus Vinícius Mantovanelli, produtor da obra, e Henrique Barros Lesina Zingano, editor e apresentador do documentário, ambos apontados por uso de documento falso.
As investigações indicam que a campanha que acompanhou o lançamento do filme foi organizada em grupos de mensagens, onde eram discutidas estratégias para divulgar conteúdos nas redes sociais questionando o caso e atacando a credibilidade da ativista.
Diante da repercussão e das ameaças virtuais registradas durante a apuração, Maria da Penha passou a receber acompanhamento de um programa de proteção a defensores de direitos humanos ligado ao Ministério Público cearense. O processo agora segue para a fase de instrução na Justiça.
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