Governo Bolsonaro tentou vender respiradores no exterior com UTIs lotadas na época da pandemia
O governo Jair Bolsonaro mobilizou dez embaixadas em 17 de junho de 2020 para buscar interessados em respiradores brasileiros no exterior, enquanto hospitais do país enfrentavam UTIs lotadas. A iniciativa do Itamaraty pretendia mapear compradores e preparar uma possível campanha comercial, sob a justificativa de que a fabricação nacional poderia superar as necessidades internas.
A ordem consta de telegramas diplomáticos obtidos pela organização Fiquem Sabendo por meio da Lei de Acesso à Informação. Encaminhada com prioridade máxima, a circular solicitava consultas a governos, hospitais e empresas de dez países sul-americanos sobre quantidades desejadas e exigências técnicas dos equipamentos.
O documento não apresentava estudos ou estimativas que sustentassem a expectativa de sobra de aparelhos. Naquele dia, o Brasil contabilizou 1.269 mortes por Covid-19 em 24 horas, chegou a 46.510 óbitos acumulados e tinha seis estados com ocupação das UTIs acima de 80%.
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Os atrasos no abastecimento nacional também contrariavam a perspectiva apresentada pela diplomacia brasileira. Até o encerramento de maio, haviam sido entregues 1.612 dos 14,1 mil respiradores contratados pelo governo federal, enquanto estados cobravam equipamentos prometidos para colocar novos leitos em funcionamento.
Relatórios confidenciais da Agência Brasileira de Inteligência alertavam para a falta de respiradores em Manaus e o risco de colapso assistencial. Paralelamente, uma reunião do comitê de emergência da Saúde, realizada na data da circular, registrou orientação para afastar a responsabilidade federal pelo fornecimento desses aparelhos aos estados.
Desde abril, a exportação estava proibida por lei, com exceções condicionadas à justificativa e à preservação do atendimento brasileiro. Apesar disso, a embaixada em Quito informou, em julho, ter encaminhado contatos de fabricantes nacionais a um potencial comprador equatoriano.
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