Jornalismo amador: a grande imprensa já julgou todos os mortos no RJ
A cobertura midiática de operações policiais em tempo real frequentemente opera sob uma lógica de produção noticiosa que privilegia o furo jornalístico e o impacto imediato. Nesse contexto competitivo, é recorrente a veiculação de informações ainda não devidamente checadas, que são apresentadas ao público como verdades factuais.
O jornalismo deveria ser uma das profissões mais preocupadas com checagem de fatos, sobretudo quando se fala de vidas humanas. Mas parece que quando se trata de vidas perdidas em operações policiais, as terminologias definitivas e carregadas de juízo de valor viram arroz de festa.
Quando uma grande emissora decide usar como a tarja “60 bandidos mortos” em momentos nos quais sequer houve tempo hábil para a correta identificação das vítimas ou para a apuração das circunstâncias exatas de cada óbito, ela manda uma mensagem a milhões de espectadores, que menos críticos ainda, espalharão esse senso comum como verdade absoluta. Foi assim com o Massacre do Carandiru, foi assim com o caso da Escola Base.
Essa prática, longe de ser um deslize ocasional, consolida-se como uma rotina produtiva. A repetição sistemática de uma narrativa que simplifica o conflito em “polícia versus bandidos” cria um script simplório, pronto para ser consumido pelas grandes massas, sempre ávidas para ter seu viés de confirmação de que “todo favelado é bandido” ser confirmado.
Colocar em letras garrafais que mais de 60 pessoas mortas em uma tarde são bandidas sem saber o básico do que houve é má fé temperada com doses cavalares de racismo.
- Número de mortes em chacina no Rio passa de 130, diz defensoria
- Operação mobiliza 2,5 mil agentes e se torna a mais letal da história do Rio
- 64 mortos na operação mais letal da história do Rio
Ora, uma favela possui complexidade socioeconômica das favelas e é constituída de cidadãos com histórias plurais e não um palco homogêneo de ilegalidade. A TV e os grandes portais preferem trocar a figura do “suspeito” pela categoria genérica e desumanizadora do “bandido”, anulando a presunção de inocência e tornando heróis uma horda de fardados que já mostraram serem pouco afeitos a seguirem a legalidade.
A consequência direta dessa abordagem é a naturalização de um discurso maniqueísta, onde a letalidade estatal aparece não como uma questão complexa e problemática, mas como um resultado esperado e até mesmo legitimável.
A narrativa construída pela mídia hegemônica e sensacionalista, muitas vezes apressada, molda o imaginário popular, reduzindo vidas humanas a meros elementos de uma guerra espetacularizada, e que invariavelmente serve para justificar a perpetuação do próprio ciclo de violência que se propõe a noticiar.
A cobertura midiática não pode operar sob uma lógica de produção noticiosa que privilegia o furo jornalístico e o impacto imediato. O jornalista não pode condenar indivíduos sem nenhuma apuração, sendo guiado por preconceitos e senso comum. E nem vamos entrar no famigerado jornalismo declaratório, onde a reprodução de falas rasas ou absurdas é reproduzida sem criticidade acompanhando, convidando o público a refletir.
A linguagem é poderosa e pode matar pela segunda vez quem já não pode se defender
Continue lendo
Lula tira R$ 226 milhões do orçamento militar para priorizar saúde e assistência social
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cancelou R$ 226,51 milhões em verbas previstas para o Ministério da Defesa e as Forças Armadas...
Cozinheiros do Bem perde apoio por conta de posicionamento político e vira alvo de ironia de Nikolas
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) usou o Instagram na quinta-feira (29) para ironizar relatos de suspensão de doações ao Cozinheiros do Bem, que oferece refeições...
Rebeca Matta quebra jejum de 13 anos com novo álbum
Rebeca Matta volta a lançar um álbum após 13 anos com a chegada de “Pélvica”, que chegou às plataformas de streaming na última sexta-feira (30). A...
Investidores perdem patrimônio com apostas eleitorais para vitória de Flávio
Investidores brasileiros que fizeram operações financeiras contando com a vitória de Flávio Bolsonaro (PL) relataram perdas superiores ao dinheiro aplicado após o segundo turno de domingo...
Jato usado por Flávio tem ligação com narcotráfico
O jato que transportou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aos Estados Unidos passou a ser alvo de investigações após reportagens divulgadas na quarta-feira (28) apontarem uma...
Você viu todas as matérias.
Não foi possível carregar. Toque para tentar de novo.





