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A esperança não recua: ela se organiza

A esperança não recua: ela se organiza

Por João Paulo Mehl
O resultado deste primeiro turno é duro e precisa ser encarado sem derrotismo, mas também sem autoengano. Perdemos cerca de 3,5 milhões de votos em relação a 2022. Mais do que procurar explicações confortáveis, precisamos perguntar: onde perdemos conexão com parcelas da sociedade? O que a urna está dizendo sobre comunicação, território, organização e sobre nossa capacidade de transformar políticas públicas em esperança concreta?

Talvez precisemos começar reconhecendo que não temos todas as respostas.

A extrema direita conseguiu se apresentar como revolta contra o “sistema”. Como isso aconteceu? Como um projeto tão associado ao sistema financeiro, ao poder das big techs, a interesses internacionais e, em outra camada, à força das armas e de grupos violentos, conseguiu ocupar o lugar da contestação?

A guerra cultural é parte dessa resposta. Enquanto discutimos medos, costumes e inimigos simbólicos, desaparece a pergunta sobre quem concentra poder e riqueza. Na cultura, artistas que atacam a Lei Rouanet convivem com contratações milionárias de shows por governos locais. Na comunicação, discutir o poder das plataformas vira “censura”. Na saúde, até vacina e ciência foram arrastadas para essa disputa.

Mas talvez nosso erro seja imaginar que responderemos à guerra cultural com outra guerra cultural.

Precisamos falar da vida real. E, principalmente, precisamos voltar a ouvir.

Também há uma autocrítica incômoda a fazer. Quantas vezes nossa impaciência virou arrogância? Quantas vezes tratamos quem vota na direita como alguém moralmente inferior, ignorante ou incapaz de compreender seus próprios interesses? Quantas vezes julgamos suas razões antes mesmo de escutá-las?

É preciso reconhecer os componentes autoritários e fascistas presentes no bolsonarismo sem transformar automaticamente milhões de eleitores em fascistas. A maioria das pessoas não cabe nesse rótulo.

Se transformarmos quem discorda de nós em inimigo, fechamos a porta antes da conversa começar.

Por que trabalhadores, jovens, pequenos empreendedores e moradores das periferias, que também convivem com desigualdade e insegurança, enxergam nesse campo uma alternativa? O que não estamos compreendendo? Que frustrações não estamos ouvindo? Onde nossa linguagem deixou de chegar?

É dessas perguntas que os próximos vinte dias precisam partir.

Rua, cultura, bairros, festas e mobilização continuam fundamentais. Mas precisamos combinar mobilização com escuta organizada.

Quem votou conosco em 2022 e não votou agora? Quem escolheu outra candidatura? Quem ficou em casa? O que mudou?

Menos palestra, mais escuta.
Menos algoritmo, mais território.
Menos lacração, mais pergunta.

A urna talvez tenha trazido também outro recado. A força de uma nova geração — Ana Júlia, Luisa Cela, Luna Zarattini, Maria Marighella, Camila Jara, Denise Pessôa, entre tantos outros nomes — merece ser observada com atenção. Estamos abrindo espaço suficiente para que essa geração esteja também na linha de frente das decisões, da comunicação e da direção política?

Não é substituir nossa história. É fazê-la continuar em movimento.

Também não partimos do zero. Entre muitas redes que estão mobilizadas, o Cultura com Lula demonstrou uma importante capacidade de capilarização, articulando mais de cem cidades e centenas de organizações, coletivos, espaços culturais, artistas e trabalhadores.

Essa experiência talvez indique um caminho: organização que nasce de relações concretas, conhece seus territórios, mobiliza afetos e consegue chegar onde uma mensagem nacional muitas vezes não chega.

É hora de conversar muito. De analisar sem procurar culpados fáceis. De confrontar hipóteses, produzir sínteses e colocar a mão na massa.

Sem arrogância. Sem esconder nossos erros. E sem perder a disposição de lutar.

Talvez a virada comece justamente aí: menos na tentativa de vencer todas as discussões e mais na capacidade de reconstruir conversas.

A esperança nunca significou esperar.

Esperança é acreditar que é possível — e se organizar para tornar possível.

A esperança não recua. Ela se organiza.

João Paulo Mehl

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