Preso, Bolsonaro não viverá o inferno que elogiava em Ustra
No dia 28 de dezembro de 1972, a jornalista Maria Amélia Teles, conhecida como Amelinha, foi sequestrada por agentes da ditadura brasileira e levada ao Destacamento de Operações de Informação: Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) em São Paulo (SP).
Durante três meses, ela foi submetida à tortura por agentes do Estado, dentre eles o comandante Carlos Alberto Brilhante Ustra. Seu companheiro, César Teles, foi preso na mesma época e igualmente torturado.
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Em depoimento à Comissão da Verdade, ela relatou que foi espancada pessoalmente por Ustra. Chefe do DOI-CODI, o militar ordenou que os filhos do casal, Janaína (5 anos) e Edson (4 anos), fossem levados ao local onde a mãe era torturada, nua e ligada à “cadeira do dragão” (choques elétricos) para que presenciassem as sevícias.
Homenagem
Quarenta e três anos depois da prisão de Maria Amélia, o então deputado federal Jair Bolsonaro votou pelo impeachment da presidente Dilma Roussef e fez questão de assinalar que seu voto era: “em homenagem ao Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o terror de Dilma”.
Nove anos, 7 meses e 5 dias após o seu voto, Bolsonaro foi preso preventivamente no último sábado (22), inicialmente por violar a tornozeleira eletrônica que usava. E na terça-feira (25), o mesmo Bolsonaro começou a cumprir a pena de 27 anos e 3 meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe de estado na sede da Polícia Federal em Brasília (DF).
Desde então, seus familiares e aliados desfilam uma cantinela sobre a suposta saúde frágil do ex-presidente, na tentativa de sensibilizar a opinião pública, os políticos e a Justiça a tirá-lo da cadeia para cumprir a pena em casa. O mesmo argumento é usado pela defesa para convencer o Judiciário a não lhe mandar para a Penitenciária da Papula.
Essa repentina preocupação dos bolsonaristas com as condições do sistema carcerário brasileiro contrasta não só com a admiração de seu “mito” por Ustra e outros torturadores, mas também com tudo o que ele pregou durante sua carreira política:
- “Cadeia não é para ir a um spa. Quem está lá fez por merecer”.
- “Direitos humanos é o esterco da vagabundagem”.
- “Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso e o povo é favorável a isso também”.
- “Certas regalias como saidões deixarão de existir. Saidão pode existir, mas da cela para o pátio da prisão”.
Para a sorte de Bolsonaro, na democracia – regime que sempre tentou destruir – ele não terá nem o tratamento que defendia para os presos, nem o inferno que ele tanto desejava para quem caía nas mãos de seu ídolo torturador.
Pelo contrário, cumprirá pena inicialmente em uma sala de 12 metros quadrados, com ar condicionado, TV, frigobar, banheiro privativo, alimentação balanceada e assistência médica 24 horas. Mais do que a maioria dos trabalhadores livres têm, quanto mais os mais de 700 mil detentos em presídios, a maioria deles pretos, pobres, presos sem julgamento ou condenação.
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