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Pretos, pobres e mulheres: os alvos preferenciais da “República de Curitiba”

Vereadora professora Ângela pode ser segunda parlamentar a ser cassada na história da Câmara da Capital paranaense depois de Renato Freitas
Professora Ângela (PSOL): em mais de 300 anos, só um vereador foi cassado até hoje. Foto: Diretoria de Comunicação Social/CMC

A Câmara Municipal de Curitiba (PR) marcou para essa terça-feira, dia 18 de novembro, a sessão que decidirá sobre o pedido de cassação da vereadora Professora Ângela (PSOL), acusada pela extrema-direita de quebra de decoro por distribuir uma cartilha sobre a política de redução de danos para dependentes químicos. Caso perca o mandato, Ângela será a segunda parlamentar nos 331 anos e 8 meses de história do Legislativo da Capital paranaense a ser coroada com essa rara “distinção”.

Racismo

Desde 29 de março de 1.694, quando a Casa foi fundada, o único vereador a ser privilegiado com essa “honraria” foi Renato Freitas (PT). Filho de mãe nordestina, preto e nascido em uma ocupação urbana, Freitas teve o mandato cassado, em 5 de agosto de 2022, por supostamente invadir a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de São Benedito, construída pelos próprios escravizados e negros libertos da cidade, entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Como não eram aceitos nas igrejas dos brancos, os pretos da cidade construíram o templo para que eles mesmos pudessem praticar sua fé.

A manifestação na qual o então vereador participou foi um protesto antirracista pacífico, organizado em repúdio aos assassinatos brutais de jovens negros com grande repercussão nacional, como o caso do congolês Moïse Kabagambe, morto no Rio de Janeiro, e o de Durval Teófilo, jovem negro assassinado em Curitiba dias antes. A cassação foi suspensa pelo STF em 23 de setembro de 2022, permitindo que ele reassumisse o cargo e disputasse as eleições daquele ano, elegendo-se deputado estadual.

Símbolo

A vereadora Ângela é a primeira eleita pelo PSOL na capital paranaense, que ficou conhecida nacionalmente como a “República de Curitiba”, por ter sediado a operação Lava Jato. Eleita em 2024, com 6.294 votos, ela é professora da rede pública estadual há 27 anos.

A servidora se tornou um símbolo da luta pela educação pública no Paraná ao ser retratada em uma foto capturada em 29 de abril de 2015, durante o chamado Massacre do Centro Cívico (ou Batalha do Centro Cívico), correndo desesperadamente em frente ao Batalhão de Choque da Polícia Militar (PM), enquanto fugia de uma carga policial com bombas de efeito moral, jatos de água e spray de pimenta.

Na ocasião, os professores foram duramente atacados pela PM por ordem do então governador Beto Richa (PSDB), quando protestavam contra a votação pela Assembleia Legislativa de um projeto que alterava as regras da previdência dos servidores, impondo contribuições extras e mudanças em prejuízo dos direitos dos trabalhadores.

Impunidade

Nos últimos vinte anos, pelo menos dez vereadores de Curitiba foram acusados de corrupção, por crimes como desvio de verbas, apropriação indébita de salários (rachadinha), peculato, nepotismo cruzado e recebimento de propina. Nenhum deles foi cassado.

Os fatos evidenciam que, pelo menos no Legislativo da “República de Curitiba”, a suposta preocupação com a ética e o decoro é seletiva e tem como os alvos preferenciais da direita pretos, pobres e mulheres.

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Ivan Santos

Jornalista com três décadas de experiência, com passagem pelos jornais Indústria & Comércio, Correio de Notícias, Folha de Londrina e Gazeta do Povo. Foi editor de Política do Jornal do Estado/portal Bem Paraná.

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