Skip to content Skip to footer

Após dezenas de casos de aborto entre trabalhadoras, frigorífico dono da Sadia e Perdigão fecha acordo com MPT em Mato Grosso

Investigação revelou que, entre 2019 e 2025, foram registrados 77 abortos confirmados e 113 partos prematuros relacionados a funcionárias da empresa
Frigorífico em Lucas do Rio Verde, onde casos foram identificados: grávida de gêmeos deu à luz em ponto de ônibus, diz MPT. Foto: BRF/reprodução

Em abril de 2024, no município de Lucas do Rio Verde (MT) localizado a 330 quilômetros de Cuiabá, uma funcionária grávida de oito meses de gêmeas que trabalhava em um frigorífico da MBRF – uma das maiores empresas de alimentos do mundo formada pela fusão da Magrif com a BRF – passou mal durante o expediente, com fortes dores e tontura.

Segundo o Ministério Público do Trabalho (MPT), apesar de sua condição de gestante, a trabalhadora não recebeu nenhuma atenção da empresa. Não houve atendimento médico ou mesmo encaminhamento ao hospital.

Com o trabalho de parto já iniciado, ele se deslocou sozinha até a portaria da empresa, onde deu à luz às duas filhas no banco de um ponto de ônibus, dentro das dependências do frigorífico. Os dois bebês morreram.

Descaso criminoso

A tragédia levou os procuradores do MPT a abrirem uma investigação, e a partir dos registros da própria empresa, descobrirem um quadro tenebroso de descaso criminoso. A apuração revelou que, entre 2019 e 2025, foram registrados 77 abortos confirmados na unidade. Também foram identificados outros 113 casos de partos prematuros.

Foram encontrados ainda 71 atestados médicos referentes a condições como hipertensão, pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e restrição de crescimento fetal, descritas como relacionadas ou que podem ser agravadas pela exposição a ruído.

Na unidade, que atualmente emprega 4.800 trabalhadores, foram identificadas até fevereiro deste ano 74 gestantes, que representam 1,5% dos postos de trabalho do frigorífico.

Padrão

Diante do quadro aterrador, o MPT entrou no início de março com uma ação civil pública denunciando a exposição sistemática de trabalhadoras gestantes do frigorífico a múltiplos fatores de risco no ambiente de trabalho, entre os quais, o ruído excessivo. A investigação concluiu que a morte das bebês se deu num contexto de um padrão sistemático de descaso com a saúde das gestantes.

O Programa de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais do próprio frigorífico registrou, segundo a apuração, níveis de ruído que chegam a 93 decibéis em diversos setores da unidade em que trabalham gestantes, quando o limite máximo admitido é de 80 decibéis.

Na investigação, verificou-se ainda que apenas três das dezenas de gestantes da unidade trabalhavam em setores com ruído abaixo de 80 decibéis — todas as demais permaneciam expostas a níveis de ruído elevado.

Antecedentes

Ainda de acordo com o MPT, a situação de descaso da MBRF verificada no Mato Grosso não era exclusiva nem nova. A empresa já havia sido obrigada pela Justiça a adotar medidas de proteção às gestantes, em ação civil pública movida pelo órgão em outra unidade no Rio Grande do Sul. A decisão de afastar as gestantes de ambientes de trabalho nocivos foi mantida pelo Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, que rejeitou recurso da companhia.

No caso do Mato Grosso, o MPT pediu o afastamento imediato das trabalhadoras grávidas de setores com riscos incompatíveis com a gestação e a implementação de controles médicos específicos. O órgão pediu ainda a condenação da MBRF ao pagamento de R$ 20 milhões por dano coletivo, valor que representa menos de 0,2% do capital social de uma empresa que registrou lucro líquido de R$ 3,7 bilhões em 2024.

Após a contestação, o acordo

Inicialmente, a MBRF negou as irregulalidades, alegando em nota seguir “rigorosamente a legislação vigente, e afirmando fornecer e garantir o uso de equipamentos contra ruídos “certificados pelo Ministério do Trabalho”.

No último dia 4, a empresa acabou fechando um acordo judicial com o MPT. O acordo foi homologado pela juíza do Trabalho Priscila Assunção Lopes Nunes, da Vara do Trabalho Lucas do Rio Verde (MT).

Por ele, a MBRF se comprometeu a realocar imediatamente todas as gestantes expostas a níveis de ruído iguais ou superiores a 80 decibéis em setores com exposição comprovadamente inferior a esse limite, sem qualquer redução de remuneração, benefícios ou direitos trabalhistas.

A empresa também concordou em adotar um programa específico de gestão em saúde para gestantes.

Em caso de descumprimento do acordo, a empresa terá que pagar multa de R$ 50 mil por irregularidade constatada, além de R$ 20 mil por trabalhadora prejudicada. Os valores devem ser revertidos ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) ou ao Fundo de Direitos Difusos (FDD).

Bookmark

Ivan Santos

Jornalista com três décadas de experiência, com passagem pelos jornais Indústria & Comércio, Correio de Notícias, Folha de Londrina e Gazeta do Povo. Foi editor de Política do Jornal do Estado/portal Bem Paraná.

Mais Matérias

STF condena Eduardo Bolsonaro à inelegibilidade e a 4 anos de prisão

Ex-deputado foi condenado por articular sanções dos EUA contra o Brasil para tentar blindar o pai, Jair Bolsonaro
12 jun 2026

Gleisi garante estar pronta para enfrentar o bolsonarismo no berço da “Lava Jato”

Ex-ministra e pré-candidata ao Senado, deputada promete questionar o que Moro e sua turma fizeram pelo Paraná e o País desde que entraram no jogo político

Moraes cobra explicações sobre arma ligada a Bolsonaro após apreensão em abordagem no DF

Decisão exige esclarecimentos da defesa e da PM sobre armamento encontrado com segurança do ex-presidente em bloqueio policial
16 jun 2026

Ex-ministro de Bolsonaro recebeu R$ 11 milhões do Master

Do total recebido, R$ 773,3 mil foram pagos diretamente a Bento como pessoa física

Pré-candidato de Flávio Bolsonaro ao Senado, deputado do PL pressionou BC a favorecer Banco Master

Filipe Barros lançou uma série de iniciativas, que incluíram a convocação do presidente do BC, Daniel Galípolo
16 jun 2026

Investigação revela atividade irregular de empresa que ocasionou morte de jovem após salto radical

Três instrutores foram presos em flagrante após jovem cair de 40 metros na Ponte do Esqueleto; grupo realizava eventos há um ano sem permissão

Como você se sente com esta matéria?

Vamos construir a notícia juntos

Deixe seu comentário