Erykah Badu retorna com disco provocador sobre amor, mídia e tecnologia
Erykah Badu encerra um intervalo de 16 anos sem álbuns de estúdio com Before the World Blows, trabalho lançado em parceria com o produtor The Alchemist. Construído entre apresentações sigilosas e adiamentos, o disco transforma a instabilidade dos dias atuais em matéria-prima que discute os limites entre afeto, tecnologia, ancestralidade e liberdade.
As 16 faixas formam uma experiência contínua, sustentada por batidas ásperas, samples e instrumentação analógica. Badu não se limita aos vocais: interfere nos arranjos, programa sons e acrescenta Mellotron, kalimba e sobreposições de voz, enquanto The Alchemist abre espaço para que soul, jazz e boom-bap convivam harmoniosamente nas melodias do trabalho.
O resultado recupera a inquietação dos projetos New Amerykah de Badu, mas evita qualquer tentativa de reproduzir uma fórmula consagrada. Em “Witch Doctor”, a cantora relaciona superstição, propaganda e manipulação midiática, enquanto “I Just Play a Part” explora os papéis assumidos nas relações e na vida pública, com intervenções de Westside Gunn.
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Os momentos mais fortes aparecem quando os grandes dilemas atravessam situações cotidianas. “Crossfade” acompanha uma mulher que prefere devolver o anel de noivado a perder a própria identidade, enquanto “To the Moon (Plan C)”, com Steve Lacy, aborda com toda a delicadeza o medo provocado por um atraso menstrual, sem transformar a experiência em um completo melodrama.
Há ainda participações decisivas de Thundercat, Earl Sweatshirt, DJ Quik, Jay Electronica e Kamasi Washington. Em “Black Box”, o saxofone de Washington amplia a atmosfera sufocante de uma reflexão sobre celulares, vigilância e dependência digital, encerrando o álbum como uma tentativa de escapar do excesso de estímulos que marcam o nosso cotidiano.
Badu explicou que o longo silêncio serviu para viver, observar e reunir material, enquanto The Alchemist relembrou a sintonia imediata surgida entre os dois no estúdio. Nem tudo funciona com a mesma força, sobretudo em interlúdios pouco desenvolvidos, mas a irregularidade combina com um disco curioso, imprevisível e corajosamente humano.
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