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Líder da comunidade palestina no Brasil, Ualid Rabah denuncia tentativa de calar debate sobre genocídio

Filho de imigrantes palestinos, o militante e ativista Ualid Rabah (PT-PR) tornou-se uma das vozes mais ativas e de maior visibilidade no debate público brasileiro sobre o conflito no Oriente Médio. Dirigente licenciado da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) ele passou a denunciar abertamente o genocídio contra o povo palestino na Faixa de Gaza e a criticar a cobertura de grandes veículos de comunicação no país, apontando uma assimetria na narrativa que historicamente invisibilizou a perspectiva palestina.

Sua atuação lhe rendeu um processo judicial do advogado do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, Daniel Bialski, que entrou com pedido no Ministério Público Eleitoral do Paraná pela impugnação da candidatura de Ualid a deputado federal pelo estado. Na ação, Rabah é acusado por Bialski – que é vice-presidente da Confederação Israelita do Brasil (CONIB) – de suposto antisemitismo.

A denúncia tem como alvo vídeo publicado no Instagram em que Rabah demonstra que Bialski integraria um voltado influenciar as eleições brasileiras e disseminar os discursos do governo Trump e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, de ódio aos palestinos para justificar o massacre na Faixa de Gaza. O advogado – que é próximo do ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, responsável pelo caso do Banco Master – chegou a patrocinar a ida de autoridades brasileiras, entre elas o magistrado, a Israel em janeiro de 2024.

Em entrevista ao Brasil Fora da Caverna, Ualid destaca como a atuação da Fepal desafiou os enquadramentos da imprensa hegemônica e fortaleceu a mobilização social. No entanto, ele adverte que esse protagonismo e a denúncia do extermínio vêm acompanhados de intensas investidas jurídicas e tentativas de censura.

Para Ualid, ações que buscam enquadrar as críticas às políticas do Estado de Israel como antissemitismo funcionam como uma mordaça que visa blindar violações de direitos humanos e inviabilizar o debate crítico.

BFC: o começo na militância

Ualid Rabah: eu sou um sujeito de 59 anos, filho de pai e mãe palestinos. Nasci em Toledo, no interior do Paraná. Fiz muitas coisas na minha vida. Trabalhei desde os oito anos no comércio com meu pai, porque ele era analfabeto em língua portuguesa e precisava de alguém que emitisse e escrevesse notas fiscais no final do dia.

Estudei sempre em colégios públicos, inclusive na universidade pública, tanto em Toledo quanto em Maringá. Fiz o movimento secundarista e universitário. Comecei minha vida política partidária no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1984, ainda na ilegalidade, quando também comecei a militar no movimento palestino no Brasil e na juventude palestina nessa diáspora. Ainda em 1984, passei pela Juventude Comunista e acabei me destacando no movimento palestino.

Fui dirigente da Fepal como secretário de Relações Institucionais, eleito no congresso, fui eleito presidente e reeleito presidente. Essa militância palestina me valeu uma inserção muito importante. Acabei sendo o quadro que mais se destaca na luta antirracista, o que me faz ter um assento no Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial durante oito anos, seis deles como titular. Isso me valeu ter experiências fantásticas, como integrar a comissão que pressionava pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, que correu o risco de não ser aprovado no Senado. Também integrei uma comissão que falou duas vezes com Romero Jucá (MDB-RR) para aprovar a chamada PEC das Domésticas, que finaliza a longa transição para a plenitude e concretude da Lei Áurea. Muita gente acha um exagero dizer isso.

Resumidamente, o que mais me tornou alguém útil para a raça humana, pelo menos publicamente, foi a militância no movimento nacional palestino na diáspora brasileira. De modo muito exponencial, a partir de 7 de outubro de 2023, assumimos, enquanto Federação Árabe Palestina do Brasil e eu como presidente e voz pública dessa organização, que o que acontecia na Palestina era genocídio. Que o que acontecia em Gaza seria o primeiro genocídio televisionado da história. E que haveria também, pela primeira vez na história, uma propaganda de guerra em escala global, promovida pelos grandes veículos de comunicação hegemônicos e comerciais, para demonizar uma demografia inteira, conquistar demografias enormes no Ocidente para ter opinião pública a favor de um extermínio televisionado.

Isso foi muito impactante na época por essa locução desafiante que inclusive chocou uma parcela dos solidários à Palestina que tinham medo desse desafio, pois estavam absortos nas cordas pela grande capacidade de impor o ponto de vista israelense naquele momento. A partir de 7 de outubro de 2023, nós fizemos também um segundo desafio: havia uma voz palestina no Brasil que não estava sendo ouvida e que deveria ser ouvida. Na noite do dia 7 de outubro de 2023, em uma entrevista, conclamei todos os veículos de comunicação que nos ouvissem. Veio aquela enxurrada; acho que esse foi o primeiro momento de inflexão majoritária de veículos de comunicação procurando uma voz palestina.

Isso foi muito diferente. No dia seguinte, bancamos uma provocação no nosso Twitter (X) direcionada à Globo, dizendo que a emissora estava se recusando a nos ouvir, perguntando o porquê e fornecendo todos os contatos da Fepal. A Globo representava no Brasil exatamente essa voz genocida. Se a Globo moderasse sua postura, os demais veículos talvez acompanhassem essa moderação. Naquele momento, todos os veículos tornaram os palestinos em algozes e os promotores do extermínio, e Israel e o sionismo nos mocinhos e vítimas — como se os nazistas tivessem sido as vítimas dos campos de concentração e não o contrário; como se as vítimas das câmaras de gás tivessem sido os algozes, e aqueles que as trancafiaram fossem as vítimas.

Foi isso o que aconteceu, e isso acabou dando à Fepal esse protagonismo. Para muitas pessoas que analisam, houve duas grandes vitórias. Pessoal da Universidade Federal Fluminense me contactou dizendo que a Fepal seria adotada como um estudo de caso de como foi possível esse grande ganho comunicacional por uma entidade sem recursos, sustentada por uma grande causa. Há quem diga que a Fepal se tornou a mais importante organização palestina do Ocidente e talvez de qualquer diáspora palestina no mundo. Hoje não é preciso dizer “Federação Árabe Palestina do Brasil”, basta falar “Fepal” que já se sabe o que é, como falar “CUT”.

BFC: cabeça erguida

Ualid Rabah: aconteceu uma coisa engraçada: em novembro de 2023, fui a uma manifestação na Rua XV de Novembro contra o genocídio. Fiz minha intervenção e saí às pressas para ir ao estacionamento pegar meu carro para cumprir outra agenda relativa ao genocídio. Estávamos eu e meu sobrinho aguardando o semáforo fechar para pedestres atravessarem e uma menininha de uns 15 anos olhou para mim e falou: “Você é o cara da Fepal”. Foi surpreendente. Esse talvez tenha sido o grande momento da minha vida, o qual eu poderia traduzir em um episódio frente ao qual eu poderia dizer: “fiz tudo o que tinha que fazer na vida, posso me aposentar”.

Ainda em novembro de 2023, fui a um casamento palestino em Santana do Livramento, que tinha sido adiado por causa do início do genocídio. Esperavam o extermínio parar, mas como não parava, não havia como adiar a cerimônia ad aeternum. O casamento foi uma grande festa patriótica, com bandeiras da Palestina e lenços palestinos como jamais vi em um só lugar, e música patriótica nas primeiras três horas. Contrataram especificamente um militante palestino que foi prisioneiro do regime israelense e vive em Santana do Livramento há uns 30 anos; ele era cantor lá e continuou cantor aqui.

Quando chego, há a tradição de visitar as comunidades palestinas. Eu visitava comerciante por comerciante, de lojinha em lojinha. Um deles me surpreendeu ao me abordar: muito mais velho do que eu e militante do movimento palestino, ele me disse uma expressão em árabe que poderia encerrar minha carreira de militante no sentido de tempo de militância. Ele me disse: “Ualid, você ergueu a nossa cabeça”. Isso em novembro, após um mês de peleja, entrevista em cima de entrevista, em que era preciso peitar entrevistadores que pareciam algozes inquirindo — na Rádio Gaúcha e em vários outros veículos. Esse foi o momento decisivo e icônico na minha vida. É esse o lugar, tempo e espaço em que estou hoje.

BFC: família imigrante

Ualid Rabah: meu pai chegou ao Brasil em 1960, vindo da Cisjordânia, de uma cidade chamada Kubar, perto de Ramallah e de Jerusalém — cidade do prisioneiro político sequestrado palestino mais citado como o candidato preferido à presidência na Palestina, que está encarcerado. Minha mãe veio de outra cidadezinha chamada Arura, em 1965. Eles já eram casados lá. Não foram afetados diretamente pela Nakba, a grande limpeza étnica de 1947 a 1951 que fez nascer dos cadáveres e escombros palestinos o regime israelense; foram afetados indiretamente. Viviam sob o regime de ocupação jordaniano, que terminou em 1967 com a substituição pelo apartheid, pelo colonialismo e pelo regime de limpeza étnica programada israelense.

Meu pai veio para cá sem a intenção de ficar, como quase todo imigrante árabe. Vinham para ganhar dinheiro e voltar. Por isso minha mãe não o acompanhou no início. As coisas não se deram de maneira tão cartesiana e meu pai acabou ficando. Começou a vida como mascate no Rio Grande do Sul, na Grande Porto Alegre, em Canoas – cidade que possui grande quantidade de palestinos até hoje. Depois foi para Toledo porque havia uma companhia de colonização, a Maripá, que estava abrindo glebas no oeste do Paraná. Havia propaganda na região e já morava em Toledo um palestino um pouco mais novo que meu pai, também de Kubar. Meu pai foi para Toledo, associou-se a ele — ambos sendo mascates — e abriram uma lojinha na antiga rodoviária. Em dezembro de 1965, minha mãe veio para o Brasil. Meu avô materno deu a ela a alternativa: ou ir atrás do marido ou se separar. Ela escolheu vir, chegou em dezembro de 1965 e eu, o filho mais velho de quatro nascidos aqui, nasci em dezembro de 1966.

BFC: comunidade no Brasil

Ualid Rabah: não existe dado censitário exato sobre o tamanho da comunidade palestina no Brasil. Há um trabalho estatístico publicado em 2019, realizado pelo Ibope e por outra empresa de estatística, encomendado pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. É o único trabalho estatístico existente e informa o tamanho da comunidade árabe no Brasil, que é majoritariamente libanesa, seguida pela comunidade síria e, em terceiro lugar, a palestina. A comunidade palestina teria de 190 mil a mais de 400 mil . Adotamos um número intermediário entre 200 mil e 300 mil, cerca de 250 mil. Ao pesquisar, encontra-se um dado antigo reproduzido há cerca de 40 anos afirmando que a comunidade seria composta por 60 mil membros — como se ninguém tivesse nascido ou imigrado em quatro décadas. Esse dado anterior não levava em consideração comunidades palestinas cristãs muito grandes que vieram do período otomano nos anos 1800, situadas especialmente no Nordeste e na cidade do Recife, onde temos a maior comunidade da cidade – pelo menos 8 mil pessoas -, majoritariamente cristã, que começou a migrar em 1893.

Neste momento, sou pela primeira vez candidato no processo eleitoral brasileiro. Houve outras ocasiões em que fui convidado para ser candidato a vereador, em Maringá, onde vivi 15 anos até 2001, e em Curitiba e a deputado federal em 2017 para disputar em 2018, e em 2021 para disputar em 2022. Agora se tornou inescapável. Resolvi que minha militância perde eficácia se eu não tentar ser, no Parlamento brasileiro, a primeira voz genuinamente nascida do movimento nacional palestino em diáspora e a primeira voz poderosamente antisionista na Câmara dos Deputados. Esse objetivo me coloca nessa campanha, além da defesa da soberania nacional, que considero ameaçada como nunca esteve.

Trata-se de ser uma voz antisionista e, ao mesmo tempo, ter o máximo compromisso com a defesa da soberania nacional brasileira diante dos Estados Unidos e de políticas hostis do imperialismo e do colonialismo. Há um hibridismo entre o totalitarismo estadunidense para o mundo e a ideologia sionista como o almoxarifado que abastece esse projeto com ideologia racista e supremacista. Existe hoje no Brasil uma simbiose entre o sionismo e o bolsonarismo, com a participação do neopentecostalismo.

BFC: colonização

Ualid Rabah: do ponto de vista histórico, isolando o sionismo do cristianismo, no final dos anos 1800 o sionismo surge como parte da arquitetura colonial europeia. Era supremacista e racista no sentido colonial de dominação, substituição populacional e genocídio. O projeto de realizar um novo Estado em um lugar que não fosse a Palestina nasce nesse contexto. É por isso que o sionismo inventa que não há palestinos na Palestina, inventa a ideia de um “povo eleito” e transforma isso de alegoria religiosa em projeto colonial.

Para se ligar à nova civilização, bebe do Velho Testamento, que apresenta um Deus étnico e de guerra que escolhe um grupo humano. Quando se abandona o Novo Testamento e se mergulha apenas no Velho Testamento, planta-se um Deus racializado. Foi a forma privilegiada que os Estados Unidos adotaram para combater a Teologia da Libertação, misturando o projeto sionista estatal na Palestina como experimento prático e como ideologia para isolar a generosidade cristã.

Fica fácil combater a igualdade racial a partir do Velho Testamento porque ele é supremacista. O deputado e pastor Marco Feliciano (PL-SP), para contestar as políticas de igualdade racial do governo Lula, o Estatuto da Igualdade Racial e as cotas, dizia que isso era bíblico porque os africanos seriam descendentes do filho amaldiçoado de Noé, Cam. Toda essa mistura dentro do projeto estadunidense torna a simbiose entre Israel, sionismo, lobby sionista no Brasil, bolsonarismo e supremacismo religioso na forma neopentecostal uma arquitetura totalitária e fascista moderna. Ela privilegia os bancos, o acúmulo e o domínio dos Estados Unidos, além de retroceder em pautas sociais.

Israel é fundamental nisso porque aplica essa ideologia. Israel é perigoso não apenas por exportar armas e arquitetura de morte, mas por exportar a ideologia. Quando se observa o “Complexo de Israel” no morro carioca, tem-se o triunfo desse plano via Edir Macedo e similares: uma israelização da fé cristã ao ponto de a bandeira de Israel estar nos púlpitos e de essas iniciativas obedecerem a Israel em vez de à Constituição brasileira.

BFC: ameaça à soberania

Ualid Rabah: quando se coloca essa ideologia dentro das Polícias Militares, do Exército e das forças de segurança e inteligência, retira-se a soberania do Brasil. O país pode se tornar o primeiro experimento em larga escala onde os métodos de extermínio aplicados na Palestina por Israel poderão ser utilizados aqui: exterminar em nome de Deus com drones, fuzis e inteligência artificial. WhatsApp e Meta serviram a um exército israelense e estadunidense para eliminar alvos identificados por ferramentas de IA e redes sociais, como foi denunciado em Gaza.

Sobre como uma igreja neopentecostal se liga a Israel – onde não reconhecem Cristo -, há uma engenharia anterior. Na primeira metade dos anos 1800, o sionismo foi inventado por uma parte da cristandade europeia protestante e anglicana, restauracionista que criou a ideia de retorno dos judeus europeus convertidos ao judaísmo ao longo da história à região da Palestina.

Isso é contraditório em relação ao judaísmo como fé religiosa. O judeu europeu ou qualquer outro entende que o Messias não chegou e aguarda sua vinda. A premissa judaica é que, quando o Messias vier, ele convocará o povo a Jerusalém. Os restauracionistas inverteram isso, pregando que o Messias voltará e que, para acelerar essa volta, os judeus precisam ir à Palestina. O cristianismo restauracionista inverteu a lógica. Os europeus restauracionistas queriam os judeus fora da Europa. Lord Balfour, que assinou a Declaração Balfour em 2 de novembro de 1917 prometendo a Palestina como lar nacional judeu, é um exemplo disso: em seus diários, afirmou sentir-se iluminado por Deus ao assinar o documento.

O presidente Lula tem sofrido críticas por sua posição em relação à questão palestina e a Israel. Lula não é crítico aos judeus, ao judaísmo ou à existência de Israel como Estado. Ele tem criticado a ocupação ilegal dos territórios palestinos reconhecidos pelo direito internacional e pela ONU. No final do seu segundo mandato, Lula reconheceu o Estado da Palestina como soberano, o que atraiu a fúria sionista. Nos primeiros dias do extermínio em Gaza, Lula denunciou que aquilo era um genocídio. Em Adis Abeba, na Etiópia, afirmou que o que acontecia em Gaza só tinha paralelo na Segunda Guerra Mundial.

Ao fazer isso, tocou no ponto que os sionistas usam como blindagem: utilizar os crimes nazistas para responder a acusações de extermínio. A partir dali, acusaram o presidente Lula de antissemitismo. Converter-se a um credo religioso não torna alguém etnicamente ligado a uma ancestralidade de milhares de anos atrás, como os antigos cananeus. Historiadores israelenses, como Shlomo Sand – autor de A Invenção do Povo Judeu e A Invenção da Terra de Israel –, demonstram que o judaísmo foi uma formação cananeia montanhosa. As autoridades israelenses e organizações sionistas no Brasil passam a acusar Lula de antissemitismo como forma de chantagem.

Essas mesmas autoridades já haviam chamado o Brasil de “anão diplomático” no governo Dilma, quando ela impediu que um chefe de colonos extremistas virasse embaixador no Brasil. Essas organizações atuam como extensão da política externa e do lobby israelense no Brasil. Quando encontramos Lula em Porto Alegre após sua saída da prisão em Curitiba, pedimos desculpas a ele por saber quanto o fardo da questão palestina pesou na conspiração sionista para colocá-lo na cadeia. As acusações e a difamação permanente contra o presidente Lula partem do lobby sionista no Brasil, que é o núcleo duro e fanático do bolsonarismo.

BFC: Oriente Médio

Ualid Rabah: vejo perspectiva de solução no Oriente Médio porque os Estados Unidos deixaram de respeitar a ONU e o direito internacional há muito tempo. Não respeitaram quando impuseram o apoio ao apartheid na África do Sul, quando mataram milhões de vietnamitas ou quando não acataram a Resolução 242 – que exigia a retirada dos territórios ocupados – e a Resolução 194 – que determina o retorno dos refugiados palestinos. A situação piorou a partir de 2001 com as intervenções no Afeganistão, Iraque, Líbia, Sudão, Iêmen, Síria, Líbano e Palestina. O genocídio na Palestina começou no governo Biden e Kamala Harris. Donald Trump apenas dá continuidade de forma mais verborrágica, tornando mais visível o mundo totalitário que constroem.

Tenho esperança porque hoje o G7 responde por apenas 15% a 18% do crescimento do PIB global, enquanto os BRICS respondem por quase 50%. O dólar está sendo superado em transações entre os países do BRICS por moedas locais. O sistema Swift – utilizado para impor sanções, embargos e bloqueios – está sendo substituído por sistemas alternativos de compensação internacional.

A revista The Lancet publicou um estudo cobrindo 50 anos (1971 a 2021) que revelou que, para cada morte por efeitos bélicos diretos, houve quase seis mortes decorrentes de sanções, embargos e bloqueios econômicos. Isso era viabilizado pelo domínio do dólar e do Swift. Quando esse sistema perde força, o mundo se contrapõe ao sistema imperial estadunidense, que vem sendo derrotado. Pelo critério de paridade de poder de compra, a China já é a maior economia do mundo, a maior exportadora industrial e a principal inovadora tecnológica na transição energética.

No próprio Oriente Médio, os Estados Unidos não conseguem impor sua vontade ao Irã militarmente. Os palestinos demonstraram ao mundo o genocídio e derrubaram o mito de que os sionistas são as vítimas, enquanto o Irã derrubou o mito da invencibilidade militar de Israel. Bastará ao sistema internacional substituir o unilateralismo estadunidense pelo multilateralismo. Em meados de 2024, delegações palestinas foram recebidas em Pequim pelo governo chinês e selaram um acordo de reconciliação e unidade nacional para a reconstrução da OLP.

BFC: enfrentando os lobbys

Ualid Rabah: como candidato a deputado federal, minhas principais prioridades de mandato são a defesa da soberania nacional, com retomada de um projeto de desenvolvimento estratégico e restauração da indústria estratégica brasileira nas áreas de informática, inteligência artificial, máquinas agrícolas, logística e transporte. Atualizar a doutrina de defesa do Brasil, que ainda reflete a Guerra Fria. É necessário estruturar uma indústria de defesa própria, um serviço de inteligência autônomo e uma nova orientação para as Forças Armadas. Desafiar no Congresso Nacional a atuação do lobby sionista que tenta interferir na política externa, na segurança e na educação do Brasil.

Recentemente, o advogado da Conib (Confederação Israelita do Brasil), Daniel Bialski, moveu uma ação contra mim com o objetivo de prejudicar minha candidatura a deputado federal. A ação é infundada e acusa falsamente de ataque à comunidade judaica. Por trás disso, está a tentativa de aplicar precedentes de censura e mordaça para blindar Israel e impedir a crítica ao genocídio na Palestina.

O objetivo deles é evitar que estejamos no Congresso Nacional vigiando as Comissões de Defesa, de Relações Exteriores, de Segurança, de Educação e de Direitos Humanos. Estar no Congresso significa combater a tentativa de subordinar a política externa e a segurança brasileiras ao sionismo. A defesa da soberania do Brasil e o combate ao sionismo se misturam e são, essencialmente, lutas em defesa do país.

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